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Veredeiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 18h24 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 19h06 | Acessos: 59

Características

Os povoados veredeiros localizam-se na junção dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás, próximos a cursos d’água e em biomas típicos do Cerrado, nas veredas e chapadas.

O sistema produtivo veredeiro ancora-se nos seguintes eixos: proximidade da água, lavoura, criação de animais e extrativismo nas áreas comunais. Tanto na lavoura quanto no extrativismo, há o beneficiamento de diversos itens. OS veredeiros possuem o hábito de plantar em brejos (veredas), com grande aproveitamento da terra fértil e utilizando técnicas tradicionais de lavoura. Como nas áreas de brejo a água chega a brotar do chão, de tão abundante, tem-se por costume abrir valas na lavoura para que esta seja drenada e a terra fique mais firme para plantio.

Há também a plantação de pomares para produção de frutas das quais também se fazem doces, com finalidade de comercialização em pequena escala. Praticamente tudo o que é plantado é destinado para a subsistência da família, indo uma pequena parte, o excedente, para comercialização. A mandioca é plantada com finalidade de beneficiamento, produzindo-se a partir dela a farinha e goma para o consumo e a venda. Para a produção da farinha, os veredeiros utilizam estruturas comuns e praticam a extração de madeira das redondezas das propriedades para fazer lenha.

Há, nas terras veredeiras, as chapadas – áreas comunais que fornecem espaço para a criação de bovinos, equinos, caprinos e suínos e para o extrativismo de buritis, pequis, cocos, sementes de mamonas etc. (com os quais se fabricam, principalmente, doces, farinhas e óleos), além da coleta de plantas medicinais. O buriti, especialmente, provém ampla possibilidade de usos e fins, como os frutos, cobertura das casas com a palha e produção de artigos e ferramentas diversos com a sua seda e madeira. O beneficiamento destes itens serve como fonte de renda e é entendido como um momento de reforço dos vínculos entre parentes, vizinhos e compadres.

“Nestes lugares, bem como nos diversos sertões que serão retratados adiante, a ocupação humana é fator preponderante para a regulação da vivência coletiva, pois a interdependência entre homem e natureza é constitutiva do viver e do fazer sertanejo, principalmente do veredeiro, sujeito simples e respeitador das mensagens que a natureza emite através de sinais que eles conseguiram e conseguem decifrar. São mensagens não apenas simbólicas, mas reais, que dizem ao nativo como o comportamento dele deve ser conduzido, principalmente ao referir-se ao manejo da agricultura.” 2

Os principais conflitos enfrentados pelos veredeiros dizem respeito ao acesso à terra e aos recursos naturais. A implantação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas em 1989 em áreas sobrepostas às áreas de vivência dos veredeiros limitou suas formas de produção e expressão cultural, obrigando-os a uma desterritorialização e ao assentamento fora de suas terras tradicionais. Esta implantação deu-se sem o devido respeito e diálogo com os habitantes locais, sem levar em conta os traços de sociabilidade e construção de modos de vida marcados pela relação com aquele território específico e sem se ater à possibilidade de uso e convivência sustentável entre os veredeiros e o espaço preservado por meio do extrativismo não predatório.

Existem ainda conflitos com carvoeiras, com empresas de plantio de eucalipto que prejudicam o ecossistema local, causando assoreamento das nascentes e com grandes fazendeiros e latifundiários da região que submetem os veredeiros a regimes de servidão e expropriam as terras dos veredeiros. Além disso, o IBAMA mantém vigilância sobre o hábito de queima do Cerrado para o gado, com alegação de que esta prática coloca em risco o bioma, mas os veredeiros defendem que as queimas são controladas, acontecem em locais alternados e, sem elas, a única coisa que cresce é um capim duro e seco que faz o boi passar fome e impede que outras plantas nasçam no local, além de aumentar o risco de queimas espontâneas no período seco (que são extremamente danosas para o ecossistema).

Neste contexto, foi redigida, em 2012, uma Carta dos Povos do Cerrado, que clama às autoridades brasileiras pelo reconhecimento do bioma do Cerrado como Patrimônio Nacional e reivindica a criação de Reservas Extrativistas nas quais os povos tradicionais deste bioma tenham garantida a manutenção de seus modos de vida e de produção. Apesar de os veredeiros não estarem citados nominalmente na carta, eles também se beneficiariam dos resultados do atendimento às demandas expressas neste documento..

Um outro passo importante que pode ser registrado no que tange à organização social e à busca por garantia de direitos de reprodução sociocultural dos veredeiros, é o VIII Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, realizado em munho de 2014, em Brasília, com o intuito de reforçar as alianças e redes entre os povos que vivem neste bioma, além de dar visibilidade à produção diversificada destes povos. Foram criadas na região de Montes Claros/MG e no entorno do PARNA GS , cooperativas de produção de polpa e beneficiamento de alimentos extraídos do Cerrado, com a participação de veredeiros.

 

Referências

GAMA, M. G. C. C. Água, vereda, veredeiro: um estudo sobre as agriculturas camponesa e comercial, nas cabeceiras do Rio Formoso, em Buritizeiro-MG. 2006. 120 f. Dissertação (Mestrado)-Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006.

MARTINS, G. I; SOUZA, A. F. G. O com-viver de tempos-espaços: territórios e representações entre os veredeiros do Parque Nacional Grande Sertão. Geonordeste, ano XXIV, n.1, 2013.  p. 128-149

GOMES, L. G. R.; FREITAS, D. P. G. As gentes das veredas sertanejas: produção e territorialidade. [s. l.], [s. d.]. 15 p.

RODRIGUES, L. R; THE, A. P. G. Veredas, oásis do Sertão: conflito ambiental na apropriação das águas em Botumirim-MG. Soc. nat.,  Uberlândia ,  v. 26, n. 1, abr.  2014 .  Disponível em: (Acesse o artigo.).

LOPES, C. A. S. Quando a vereda se faz berço: os veredeiros e suas concepções de vida In: Os sertões nortemineiros: fronteiras e identidades politizadas que afirmam a diversidade sociocultural do Norte de Minas. Dissertação (mestrado), Universidade Estadual de Montes Claros, Unimontes, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social/PPGDS, 2010. p. 90-91 2Citação retirada deste texto.

MARTINS, G. I. As tramas da des(re)territorialização camponesa a reinvenção do território veredeiro no entorno do Parque Nacional Grande Sertão-Veredas, Norte de Minas Gerais / Geraldo Inácio Martins. - 2011.  298 f.: il.  Dissertação (mestrado), Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-Graduação em Geografia.

OLIVEIRA, T. H. Parque Nacional Grande Sertão Veredas: o papel da população tradicional na conservação e nas decisões políticas sobre os rumos de seus territórios naturais. 2013. 21 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Naturais)—Universidade de Brasília, Planaltina-DF, 2013 1Citação retirada deste texto.

Site Central do Cerrado. (Acesse o site.).

Site Rede Cerrado. (Acesse o site.).

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