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Vazanteiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 17h38 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 16h14 | Acessos: 41

Histórico

“Porque a terra, quando o rio enche, ele vem trazendo tudo o que é de insumo, de adubo, de matéria orgânica, de tudo assim pra poder criar. Aí quando a planta nasce, ave Maria! É uma coisa muito boa, você sabe que não tem porcaria” (vazanteiro, Ilha de Pau de Légua, 2010).

A ocupação e utilização das margens do Rio São Francisco datam de um período anterior à colonização brasileira. Assim como os moradores atuais, os indígenas que lá estavam utilizavam o espaço e tinham suas vidas reguladas pelo rio e seus ciclos, pela seca e pelas chuvas. Estes indígenas tiveram um histórico marcado por conflitos, expulsões e posterior assimilação e miscigenação dos remanescentes com grupos de europeus e seus descendentes. Da miscigenação do europeu com o indígena e posteriormente com o africado escravizado, surgiu a figura do caboclo camponês, adaptado às águas e à região.

Por conta da falta de hábito de se demarcar e legitimar a posse das terras, muitos vazanteiros acabaram, ao longo das décadas passadas, perdendo suas terras para grileiros e posseiros. Os fazendeiros que tomaram as terras vazanteiras lidam principalmente com monoculturas, criação de gado e pecuária, com alto impacto ambiental.

A área do “velho Chico” sempre foi sinônimo de fertilidade e prosperidade. Suas vazantes possuem solo fértil e possibilitam a irrigação de áreas mais secas, desenhando assim um contexto de diversidade na agricultura local.

As intervenções externas têm mudado as características do Rio São Francisco.Como principais fatores modificadores podem ser citados: as hidrelétricas, que administram a vazão do rio de acordo com as necessidades do mercado energético e causam outras alterações socioambientais;os projetos de irrigação que bombeiam água do rio paraas lavouras, alterando sua vazão; o desmatamento que dá lugar às lavouras extensivas e à criação de gado;o uso de agrotóxicos e de adubos químicos que contaminam as águas dos rios e o lençol freático. Essas intervenções geram consequências diretas às comunidades vazanteiras poisalteram seus modos de produção e de vida.

Essas comunidades estão ligadas ao rio no seu cotidiano. Dele tiram o sustento e a possibilidade de uma vida digna. Ainda assim, há uma constante luta pela manutenção do seu modo de vida, conflitos com empreendimentos, unidades de conservação, organizações governamentais, entre outros que interferem no fluxo natural da vida local.

Desde o início da expansão territorial colonial, a região e seus moradores são vítimas de processos de expropriação de terras e desconsideração da ancestralidade e cultura. Essa relação se deu dessa forma com os primeiros europeus, com os bandeirantes e as sesmarias, com os grandes fazendeiros (coronéis) durante o período da escravidão, com as políticas de incentivo ao agronegócio, atualmente com empresas, empreendimentos e unidades de conservação da natureza.

Os vazanteiros são considerados uma comunidade tradicional que tem identidade cultural coletiva devido ao uso do território e à manutenção de práticas tradicionais. Dentre suas atividades estão o extrativismo vegetal e animal, a agricultura de subsistência com venda de excedentes, a criação de pequenos animais e a lida diária com o rio. Possuem valores e costumes difundidos entre as famílias das comunidades e códigos de conduta na relação com a natureza e seus recursos.

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