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Vazanteiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 17h38 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 16h13 | Acessos: 191

Características

“[Antigamente] era, tudo criado lá (na Ilha). Era o contrário, a gente trazia as coisas tudo pra cá (para a cidade) pra vender. Já hoje a gente está é comprando aqui pra levar pra lá (Ilha). É complicado”. (Vazanteiro, Ilha de Pau de Légua, 2010)

Os vazanteiros estão localizados às margens e nas ilhas do Rio São Francisco, na região norte de Minas Gerais, território que anteriormente era habitado por indígenas que foram massacrados e expulsos, para ser então ocupado por grandes fazendas para extração de minério e pedras preciosas, criação de gado e agricultura de larga escala. Essas fazendas utilizavam mão de obra escrava e nelas o poder do dono da fazenda era absoluto.

Com a abolição da escravatura as fazendas entraram em declínio e a população camponesa foi tomando conta do território, a princípio em terras menos férteis nas áreas montanhosas e nas margens de rios, porém ampliando o uso da região conforme a necessidade de sustento das famílias que começavam a formar comunidades com características específicas, os vazanteiros sendo uma delas.

Para os vazanteiros, o Rio São Francisco é fundamental para a manutenção da vida pois possibilita atravessar as adversidades da seca. Este é um período onde a vida muda significativamente e apenas a expectativa da cheia traz esperança e perspectiva. O rio é responsável não só pelo sustento das famílias, mas é parte de um imaginário mais simbólico, com crenças, cultura e identidade. Um ano sem cheia, é um ano sem terra molhada e sem fartura.

A região é banhada por vários rios que juntos possibilitam projetos agropecuários e instalações de empreendimentos que geram disputa territorial, uma vez que várias comunidades norte-mineiras dependem dessas águas.

Os vazanteiros possuem técnicas e tipos de agricultura diferenciados, para cada período do ciclo das águas, plantando abóbora, mandioca, feijão, cana, frutas (acerola, mamão, melancia, limão etc.), pimenta, milho, batata-doce, cenoura, hortaliças, quiabo, entre outros cultivos. Também fazem parte da alimentação do vazanteiro as carnes de gado, porco, peixe, galinha, leite e ovo.

As famílias dividem tarefas entre seus membros, em geral a mulher cuida da casa e das crianças e os homens saem para atividades de roça e pesca. A crianças maiores auxiliam os pais, as meninas com as tarefas de casa e os meninos com o pai na pesca. Algumas mantêm casas na cidade e na roça e se dividem em dois grupos para o trabalho, reunindo-se apenas aos fins de semana. A relação entre as famílias se dá de forma diferenciada nas comunidades; algumas trabalham com terras consideradas privadas e outras com o uso comum da terra por todas as famílias. As moradias são simples, em geral, construídas de madeira e barro.

Nas festividades e cultura da região temos o batuque, música/dança típica, as festas religiosas e confraternizações, como o casamento. Como a população é predominantemente católica, possuem uma relação com essa religiosidade diariamente, com imagens de santos em suas casas, orações e respeito aos dias santos. Essas atividades são praticadas em todas as idades.

As dinâmicas sociais estão ligadas aos costumes e tradições, à família, à comunidade e ao território. O tempo para essas comunidades se divide entre a seca e a chuva e essas duas estações modificam a paisagem e a interação do vazanteiro com elas. No período de chuvas há maior variedade na alimentação e plantio, época no qual utilizam os terrenos de terra firme. Nesse mesmo terreno é possível criar pequenos animais e também praticar a caça.

No período de seca, formam-se os “lagadiços”, uma área molhada que renova a fertilidade da terra e onde é possível plantar. Há uma cultura geral de se plantar nessas áreas somente após o dia 20 de março, data conhecida como “Cheia de São José”, para que não se perca a plantação na enchente.

Os alimentos têm uma relação direta com a capacidade de trabalho. A comida típica vazanteira é o arroz, o feijão, a mandioca e o peixe, que dão força. Contudo, a implantação de uma Unidade de Conservação da Natureza na região tem mudado inclusive a relação das comunidades com a comida devido à dificuldade de acesso aos territórios onde costumavam criar e praticar o extrativismo vegetal e animal.

Somada aos problemas já enfrentados pelos vazanteiros, a criação de unidades de conservação, principalmente do Parque Estadual Verde Grande, modificou a relação entre esta comunidade tradicional e o meio ambiente. Com o Parque surgiram novos regramentos e proibições, a criação de animais (gado, porco, cavalos) e a pesca ficaram comprometidas e os vazanteiros foram colocados em situação de maior vulnerabilidade.

Os parques criados a partir do discurso de conservação acabam beneficiando apenas o governo, expulsando os vazanteiros de seu território tradicional e levando-os a morar nas cidades do entorno, ameaçando os modos de vida ligados diretamente à terra. Além do mais, a população vazanteira alega que não está esclarecida e não participou do processo de demarcação de áreas, apenas tomando conhecimento com a fiscalização, que aplica multas e restringe a circulação nas áreas demarcadas como pertencentes à Unidade de Conservação.

Além dos conflitos e problemas já enfrentados cotidianamente pelos vazanteiros, no ano de 1998 foi criado o Parque Estadual Verde Grande, que abarca uma área de mais de 25.000 hectares, dentro do município de Matias Cardoso. Segundo o relato dos vazanteiros, não houve processo de consulta pública ao esse parque estadual fez com que os moradores desta localidade fossem desterritorializados, perdendo o direito de exercer sua cultura e seus modos de vida, tendo em vista que este conflitava com o caráter conservacionista do parque.

“O posicionamento dos órgãos de fiscalização ambiental responsáveis pelo parque tem sido o de transformar aquela comunidade tradicional de trabalhadores a transgressores dos recursos naturais a quais tiveram acesso e dependeram (e dependem até hoje) para a continuidade do seu modo de vida específico. Sobre o processo de criação (...), percebe-se que as comunidades do entorno no PEMS foram totalmente desconsideradas quando do estabelecimento da unidade de proteção integral, indo de encontro ao instrumento legal que prevê consulta pública à comunidade atingida (SNUC).”

Além dos problemas territoriais advindos das unidades de conservação mais restritivas, os vazanteiros enfrentam problemas ligados aos conflitos do campo, como o avanço do agronegócio, cercamento de áreas de uso comum, posseiros e grileiros, ameaças de grandes donos de terra, poluição de campos e das águas dos rios por agrotóxicos e esgoto, seca do rio, entre outros, citados anteriormente.

Os vazanteiros, a partir dos problemas e conflitos enfrentados em seu território, se organizaram inicialmente a partir da Comissão Pastoral da Terra – CPT e do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA, o que fez com que reforçassem sua autodeterminação e que inserissem, em seus discursos e práticas, noções relacionadas à gestão ambiental de seus territórios. Ao mesmo tempo, no âmbito das próprias comunidades locais, foram criadas as denominadas associações de vazanteiros.

Estes movimentos realizam diversos encontros onde se discute o presente e o futuro das comunidades, contando com momentos de confraternizaram que visam manter vivas as manifestações culturais por meio dos cantos e danças. Os vazanteiros dedicam-se, durante os encontros, à produção de cartas abertas para se posicionarem a respeito da perda do seu território tradicional e das demais ameaças ao seu modo de vida, além de defender a criação de unidades de conservação de uso sustentável. Já há uma proposta para criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) em Minas Gerais, que garantiria a permanência das comunidades nos territórios que reivindicam como tradicionais e a reprodução social e cultural dos vazanteiros.No dia 24 de julho de 2011, vazanteiros ocuparam a sede da antiga fazenda Catelda, denominando a luta e ocupação como “Vazanteiros em Movimento”; uma das reivindicações é justamente a criação da RDS.

Atualmente,com o aumento das dificuldades de ocupação dos territórios tradicionais para a prática das atividades de subsistência, parte da população vazanteira buscou trabalhos não vinculados às suas antigas ocupações e depende da cidade e seu comércio. Atuando tanto no mercado formal quanto informal, fazem“bicos” na cidade e atuam como guias pelo rio para pescadores de fora, garantindo a renda e o sustento. Uma vez que foram desterritorializados, é praticamente impossível encontrar outro território onde possam plantar, pescar, caçar, criar animais e reproduzir seus modos de vida tradicionais.

 

Referências:

ARAÚJO, E. C. Nas margens do São Francisco: sociodinâmicas ambientais, expropriação territorial e afirmação étnica do Quilombo da Lapinha e dos vazanteiros do Pau de Légua. 2009. 256 p. Dissertação (Mestrado), Universidade Estadual de Montes Claros, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social.

CAMENIETZKI, C. P. A. Unidades de conservação e soberania alimentar: análise da comunidade vazanteira Ilha de Pau de Légua, no entorno do Parque Estadual da Mata Seca, Norte de Minas Gerais. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Montes Clarostes, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social/PPGDS, 2011. 148 p. *todas as falas de moradores transcritas nesse texto foram retiradas desta referência.

SILVA. C. B.; SANTOS, T. D. L. S. Os vazanteiros de Pau de Légua e sua territorialidade.  [s. d.], [s. l.] 10 p. Trabalho realizado à partir de pesquisa de Iniciação Científica.

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