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Seringueiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 17h28 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 16h13 | Acessos: 31

Histórico

A ocupação da Amazônia se iniciou no começo do século XVII, na tentativa de barrar o avanço dos holandeses, ingleses e franceses sobre o território brasileiro desde o início da colonização do país. Desde então, o processo de ocupação humana acompanhou o processo de descoberta, extração e exportação de diversos produtos próprios da Amazônia, como medicamentos, madeira, cacau, baunilha, cravo, canela e resinas aromáticas, que contavam com o trabalho dos índios. Além disso, desenvolveu-se o cultivo de cana, café, algodão e tabaco nos séculos seguintes.

A Amazônia entrou de fato na rota de exploração mundial depois de 1839, ano da descoberta do processo de vulcanização da borracha, processo que lhe ampliou as possibilidades de usos e aplicações na indústria mundial por aumentar sua resistência e durabilidade. O primeiro surto migratório ocorreu a partir da década de 1870, principalmente por conta da seca alarmante que assolava o Nordeste, matando milhares de pessoas nesse período. Além disso, o Governo Federal incentivou a ida dos nordestinos à Amazônia, na tentativa de amenizar os conflitos fundiários da região e ao mesmo tempo atender à crescente demanda da indústria bélica que consumia grande parte da produção da borracha, tanto na I quanto na II Guerra Mundial. Para tanto, vendia-se a imagem da conquista de dinheiro fácil e abundante com a extração do látex, fato que se revelava ilusório aos que se aventuravam na Amazônia. Estima-se que pelo menos 500.000 nordestinos foram para a Amazônia entre 1838 e 1960. Essas pessoas migraram por conta da miséria, da falta de perspectivas em suas próprias terras, conflitos no campo, secas e outros problemas.

Na década de 1910 a 1919, a ampliação vertiginosa na produção de borracha asiática causou uma forte queda nos preços do látex, pois a produção se tornou maior que a demanda. O fato levou à quebra em série dos aviamentos (que contratavam os seringueiros e negociavam a borracha nos mercados nacionais e internacionais), ocasionando o calote nos bancos e o abandono em massa de seringueiros à própria sorte na floresta, sem assistência. Essa situação obrigou-os a encontrarem outra fonte de renda e subsistência ou a migrar para as cidades próximas em busca de oportunidades. Os seringueiros que ficaram acabaram diversificando a produção, aprendendo a extrair outros produtos da floresta, a plantar roças para subsistência, caçar e pescar, além de acumular conhecimentos sobre os ciclos da natureza.

A II Guerra Mundial trouxe de volta, na década de 40, a demanda por borracha em larga escala, e levou os governos dos EUA e do Brasil a atuarem juntos no sentido de incentivar novamente a ida de trabalhadores aos seringais. O governo de Getúlio Vargas fez campanhas, abriu departamentos para controlar a ida dos trabalhadores para a Amazônia e criou o termo “soldados da borracha”. Ao longo do processo de implantação dos seringais, inúmeras tribos indígenas foram dizimadas na “conquista” dos territórios.

Nas décadas de 60 e 70, em plena ditadura, teve início a mobilização de seringueiros por melhores condições de trabalho e contra o avanço crescente do desmatamento, por conta da política desenvolvimentista dos militares. Nesse contexto surgiu Chico Mendes e a estratégia dos empates, forma pacífica de resistência na qual os seringueiros se colocavam em frente às florestas que seriam desmatadas e ali permaneciam mesmo diante das ameaças e, em alguns casos, dos atos de violência e morte às famílias, impedindo, assim, o corte das árvores. A estratégia dos empates envolvia, ainda, o diálogo com vistas ao convencimento entre os líderes do movimento de resistência e os jagunços contratados para executar o corte das seringueiras e demais árvores da floresta. Os empates levaram a importantes vitórias, mas, como resposta, encontraram maior violência por parte dos donos de terras.

A mobilização pela conservação da floresta por parte dos seringueiros deu um salto qualitativo com a criação, ao longo da década de 70, do Sindicato de Trabalhadores Rurais do Xapuri, no Acre. Além deste sindicato, vários outros sindicatos e movimentos foram criados, se somaram e começaram a dialogar com o governo a fim de defender melhores condições de vida para os trabalhadores da floresta e unificar os povos e comunidades que viviam dela. Alguns desses movimentos contavam com o apoio da igreja católica com as comunidades eclesiais de base, de partidos políticos de esquerda e de organizações não governamentais. Nesse período também foi criado o Conselho Nacional de Seringueiros – CNS, que em 1985 passou a ter financiamento externo e consequentemente mais autonomia e força para agir. Esse novo panorama político incentivou a abertura de novos sindicatos e a criação de uma rede consolidada de sindicatos locais, federações e o Conselho, com cada vez mais força política para tentar impedir a destruição da floresta e a exploração dos trabalhadores rurais.

Ocorreu em 1985 o Primeiro Encontro Nacional de Seringueiros, em conjunto com ações diretas de cunho pacífico e grande visibilidade. Ao longo deste mesmo período começou a se delinear o conceito das reservas extrativistas, que seria mais tarde implementado. Em 1988 Chico Mendes foi assassinado, o que não impediu os seringueiros de manterem-se lutando. O resultado em longo prazo desta luta foi a criação da figura jurídica das Reservas Extrativistas, unidades de conservação da natureza sob controle do Governo Federal que permitem a extração sustentável de produtos diversos e tem a intenção de respeitar e proteger os modos de vida, usos, costumes e atividades produtivas dos povos extrativistas, dentre eles os seringueiros. Essas são terras pertencentes à União, análogas às reservas indígenas, nas quais os trabalhadores têm direito de usufruto por período indeterminado e sem possibilidade de privatização.

“Em 20 anos, de 1989 a 2009, foram criadas, segundo Juan Felipe Negret, cerca de 50 Reservas Extrativistas federais, cobrindo em torno de 10 milhões de hectares em diversos biomas do Brasil (não somente na Amazônia), e existem aproximadamente outros 50 pedidos de criação para novas unidades.”3

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