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Seringueiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 17h28 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 19h05 | Acessos: 123

Características

Localização/Bioma: Floresta Amazônica, nos Estados do Amazonas, Pará, Acre.

O regime de exploração dos seringueiros por parte dos seringalistas consistia e consiste na obtenção de roupas, alimentos, ferramentas e condições de trabalho, além de locais propícios à exploração por parte do seringalista, com a contrapartida do seringueiro de entregar toda sua produção ao primeiro e trabalhar pelo menos seis dias na semana. Esse sistema propicia o quase automático endividamento do seringueiro, que não tem outra alternativa a não ser continuar a trabalhar em péssimas condições, sendo o trabalhador um escravo por dívidas. O analfabetismo massivo piora esse quadro, pois torna os seringueiros suscetíveis à má-fé do patrão no cálculo dos ganhos e contas. O exercício da atividade por crianças é comum, pois elas desde cedo acompanham os pais no trabalho e aprendem o ofício, vindo a exercê-lo ainda pequenas. A falta de escolas próximas aos seringais agrava a situação.

O seringal se constitui basicamente de várias “colocações” próximas entre si e um barracão para venda de produtos diversos aos seringueiros, às margens de um rio para facilitar o transporte com as cidades e centros e o escoamento da produção. As colocações são formadas por diversas cabanas cobertas de palha e pelas estradas dos seringais. Além do seringalista e do seringueiro, há outras funções dentro do barracão:

“Nas proximidades do Barracão moravam as pessoas que faziam os serviços diretos para o patrão, como por exemplo, dentre outros; o mateiro, que tinha como atribuição encontrar as seringueiras e constituir as “estradas de seringa”; o toqueiro, limpava o caminho das estradas; noteiro ou aviador, responsável pela caderneta de controle de mercadorias e produção do seringueiro; comboeiro ou tropeiro, eram incumbidos de levar a mercadoria ao seringueiro e trazer a produção; gerente do seringal, administrava o local da produção da borracha; jagunços, contratados para fazer valer as imposições dos donos de seringais.” 4

As estradas de seringueiras são formadas por números variáveis de árvores (entre 100 e 120 árvores, podendo chegar a 160) e levam em conta o tamanho da estrada e a distância das árvores entre si. As estradas são construídas em forma de gota, para que, ao fim da estrada, o seringueiro esteja novamente próximo ao início.

A coleta da seringa exige o uso de ferramentas e técnicas específicas. Os seringueiros acordam e começam o trabalho antes de o sol nascer, pois geralmente chove à tarde na floresta e a chuva dificulta muito o trabalho dos seringueiros. O seringueiro corta a casca da árvore em linhas retas e paralelas, na diagonal, e coloca uma tigela embaixo para aparar o látex, fazendo isso em várias árvores seguidas (os cortes não podem ser nem muito rasos, pois o látex não sai, e nem muito profundos, pois machucam e adoecem a árvore). O seringueiro torna a passar nas árvores, para recolher o conteúdo das tigelas. De volta ao seringal, defuma o látex.

Os trabalhadores do seringal são diferenciados quanto ao tempo de experiência e consequente qualidade do trabalho. Os novatos são designados como “brabos”, enquanto os experientes (geralmente após 5 anos de trabalho) são denominados “mansos”.

Se no primeiro ciclo de extração da borracha o seringueiro era apenas um trabalhador braçal de fora da floresta, que foi obrigado a se adaptar a condições únicas e muitas vezes adversas, o seringueiro que conhecemos hoje é, inversamente, muito bem adaptado ao meio em que vive. Esse processo de transformação da identidade seringueira enquanto comunidade tradicional levou décadas e tem sua base no fim do primeiro grande ciclo da borracha, no qual, com a quebra dos aviamentos, muitos trabalhadores foram abandonados e começaram a criar outra relação com a floresta como necessidade de sobrevivência, plantando roças diversificadas, caçando, pescando, extraindo novos produtos e criando laços e relações com as demais comunidades da floresta. Os ciclos da borracha posteriores inseriram mais centenas de milhares de trabalhadores de fora na situação de seringueiros, mas muitos acabaram se adaptando ao modo de vida da floresta e das comunidades já existentes.

Os seringueiros desenvolvem uma grande interação com a mata, de tal forma que a vida ocorre em equilíbrio com a natureza, por meio da pesca e caça de subsistência, a roça para plantio de mandioca e diversos gêneros alimentícios e outros tipos de extrativismo na mata. Geralmente o seringueiro se alimenta de carne ou peixe secos, farinha, café, além de produtos plantados em pequenas roças e extraídos da floresta. Alguns também criam pequenos animais, como galinhas, porcos e patos.

As mulheres, apesar de menos citadas, também possuem grande importância na extração de seringa, sendo iguais aos homens na capacidade de extrair o látex. O primeiro boom de extração da seringa não contava com a participação de mulheres, pois o próprio seringueiro era proibido de contrair matrimônio e ter roça, por exemplo, para não desviar o foco da extração. Já no segundo ciclo da borracha, na década de 40/50, as mulheres não apenas eram as esposas dos seringueiros, como as próprias seringueiras, aprendendo desde a infância, como os meninos, o processo de extração e vindo a exercê-lo a vida toda.

Nas últimas décadas foram criadas várias Reservas Extrativistas, que são um importante ganho na luta pelos seringueiros e demais povos extrativistas, pois unem a questão fundiária de acesso ao território e extrativismo, com métodos sustentáveis de extração dos recursos naturais da floresta, respeitando as especificidades da região.

Somente o Governo Federal pode criar uma Reserva Extrativista, uma vez que se trata de reforma agrária, e sua definição a compreende na qualidade de terra da União sobre a qual os trabalhadores possuem o direito de usufruto. (...) A existência de Reservas Extrativistas possibilita sanar os conflitos pela terra, o problema do alto índice de violência na região, garante trabalho e renda às populações tradicionais, assegurando o direito de continuarem exercendo suas atividades extrativistas, e mantém a floresta de pé, tudo isso ao mesmo tempo em que lança as bases do que viria a ser um modelo de desenvolvimento para além do capital.” 5

Entretanto, vários desafios ainda se colocam. As Reservas têm sido criadas, na maior parte das vezes, sem condições de infraestrutura mínimas, ocasionando poucos benefícios para as comunidades instaladas.

Nos últimos anos a atividade de pecuária tem se intensificado na região amazônica e elevado os índices de desmatamento a níveis alarmantes, bem como a mineração e transposição de grandes bacias para a construção de usinas hidrelétricas. Além disso, a biopirataria e os conflitos por posse de terras ainda assolam a região e seus habitantes. Além dos seringueiros, vários outros povos e comunidades tradicionais, extrativistas e indígenas, vivem com essas questões. Em contrapartida, os movimentos seringueiros continuam ativos e organizados.

Atualmente, os seringueiros possuem principalmente o perfil de mestiços e índios, e realizam um extrativismo diversificado de produtos da floresta além do látex, tanto para consumo quanto para venda, com destaque para a Castanha do Brasil. As casas dos seringueiros são simples e cobertas de palha, construídas próximas aos rios – que continuam sendo a principal via de transporte da floresta. O modo de vida ainda é simples e, muitas vezes, desprovido do acesso às estruturas de bem estar institucional como saneamento básico, escolas e hospitais.

Em alguns lugares, ações coordenadas pelo poder público e iniciativa privada transformam a realidade dos seringueiros e promovem a diversificação da produção. No Acre, por exemplo, os seringueiros de algumas localidades recebem treinamentos e incentivos para o desenvolvimento de formas alternativas de produção, como a exploração sustentável e certificada de madeira e extrativismo vegetal. Também há investimento para melhoria de estradas, infraestrutura básica e regularização fundiária. Ações como esta melhoram as condições gerais de vida e aumentam o rendimento médio dos seringueiros. Além disso, há programas de plantio de seringueiras para que a atividade se mantenha possível a longo prazo.

Por outro lado, muitos ainda não conseguiram transpor os problemas seculares que envolvem as comunidades seringueiras, como a miséria e exploração, e como consequência disso ainda há muitas famílias abandonando os seringais e indo para as periferias das grandes cidades em busca de emprego. Além disso, em algumas reservas extrativistas ocorre a exploração de gado e desmatamento, promovidos pelos próprios seringueiros como forma de complementar à baixa renda. O beneficiamento do látex já não é tão rentável e novas formas de beneficiá-lo precisam ser encontradas, como o couro vegetal (tecido de algodão com camada de látex vulcanizado que imita o couro de origem animal, fácil de ser produzido e bem aceito na indústria da confecção). Neste sentido, hoje muitos extrativistas dependem diretamente de programas de transferência de renda para se manterem.

 

Referências

ALLEGRETTI, M. A construção social de políticas públicas: Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. Desenvolvimento e Meio Ambiente, [S.l.], v. 18, Fev. 2009. ISSN 2176-9109.

ALMEIDA, M. W. B. Direitos à floresta e ambientalismo: seringueiros e suas lutas. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo ,  v. 19, n. 55, jun.  2004.

SILVA. A. C. G.; SILVA, J. C. Seringueiros na Amazônia. [s. l.], [s. d.]. 14 p. 1Citação retirada deste texto/ 2Citação retirada deste texto/ 4Citação retirada deste texto.

OLIVEIRA FILHO, M. A. M. B. A luta dos seringueiros e a criação das reservas extrativistas: os trabalhadores da borracha numa perspectiva histórica. [s. l.], [s. d.]. [8 p.] 3Citação retirada deste texto/ 5Citação retirada deste texto.

NASCIMENTO, M. G. O trabalho silencioso da mulher no interior da floresta amazônica. Revista de Educação, Cultura e Meio Ambiente, n. 11, v. 2, mar. 1998. 5 p.

NASCIMENTO, M. G. Migrações nordestinas para a Amazônia. Revxdcszista de Educação, Cultura e Meio Ambiente, n. 12, v. 2, dez. 1998. 5 p.

ARAÚJO, M. G. J. Cipó e Imaginário entre Seringueiros do Alto Juruá. Revista de Estudos da Religião, n. 1, 2004. p. 41-59

SILVA, M. T. J. Viagens ao mundo dos seringueiros pelo itinerário da educação ambiental. Dissertação de mestrado. Cuiabá: UFMT, 2007.  147 p.

ECKERT, Cornelia. História social da borracha, seringueiros do Acre. Horiz. antropol.,  Porto Alegre ,  v. 12, n. 25, jun.  2006. p. 320-323

SANTOS, N. Seringueiros da Amazônia: sobreviventes da fartura. Tese de doutorado. São Paulo, USP: 2002. 330 p.

Notícia. Uol. Jun. 2013 “Agora o seringal é no punho da rede”, afirma seringueiro em relação às mudanças no ramo. (Acesse a notícia.).

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