Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Características
Início do conteúdo da página

Ribeirinhos

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 17h16 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 16h12 | Acessos: 115

Características

Localização/Bioma: Os ribeirinhos habitam a vasta e complexa teia fluvial que é característica do Bioma Amazônia, um conjunto de ecossistemas interligados pela Floresta Amazônica e pela Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas, a mais densa de todo o planeta.

“Nós moramos aqui, na beira do rio, por causa da água corrente, morar dentro da mata a água fica represada, ai fica difícil a gente consumir água represada. Aqui no rio a água é corrente, a maré enche e vaza, e sempre vem a água limpa, que serve pra tomar, e fazer outras coisas. Também o acesso de pessoas que andam com mercadoria, isso facilita o comércio na beiro do rio, a venda e a compra de mercadoria.”

Outro papel fundamental das águas na dinâmica social é a oferta de alimentos. É nos rios, mais do que no solo, que o ribeirinho encontra sua subsistência. Peixe e camarão são as principais fontes de nutrientes e entre uma série de instrumentos utilizados para capturá-los estão o caniço e a malhadeira. O caniço é uma vara de bambu presa a uma linha e anzol, enquanto a malhadeira é uma rede utilizada para tapar lagos e igarapés e, assim, conseguir o alimento. Outro instrumento é o matapi, uma armadilha feita de talas de buriti que é posicionada no solo durante a maré baixa, cheia de babaçu por dentro. O babaçu é isca de camarão, que entra no matrapi para comê-lo e não mais consegue sair.

Os contatos sociais entre as diferentes casas de uma mesma comunidade são feitos por meio fluvial,  utilizando casquinhos ou montarias – canoas feitas de madeira que carregam no máximo quatro pessoas e que são suscetíveis à maré.

As terras secas também são fonte importante de recursos para os ribeirinhos. Mandioca, palmito e açaí são itens comuns na mesa destes povos, tendo sua produção dividida entre extrativismo na floresta e alguma agricultura que acompanhe o ciclo das águas. Além disso, principalmente para aquelas comunidades mais próximas a centros urbanos, o açaí é importante item de comércio. A coleta da fruta tem sido realizada há gerações pelos ribeirinhos da ilha do Marajó, por exemplo, que os transportam em seus barcos para vender nas cidades, junto a outros produtos secundários como peixes, farinha e outras frutas coletadas na floresta.

A educação formal, presente nas comunidades ribeirinhas através das escolas do campo, não atende as necessidades dos sujeitos que habitam estes espaços, pois trabalham um currículo com concepção, ideologia e diretrizes curriculares urbanizados que não refletem a cultura, os saberes e as práticas possíveis para estas pessoas. Segundo identificaram Reis e Menezes, “A ‘educação rural’ que temos está distante do que o homem do campo necessita e ele não ‘vê o seu mundo cotidiano entrar pela porta da escola’. O que acontece é que meninos e meninas sentados enfileirados na escola fogem de seus pensamentos daquela escolarização, quando olham sua vida lá fora pelas enormes frestas nas tábuas velhas da antiga construção escolar”.

Sobre a vida religiosa, é marcante o sincretismo destes povos, que sofreram influências do catolicismo colonizador, da presença negra e nordestina, sem perder aspectos de suas crenças indígenas, míticas, lendárias. Os religiosos católicos que chegaram à região ao longo dos séculos perceberam o que os ribeirinhos preservam esse sincretismo e resistiram às transformações desejadas pela igreja, mantendo uma identificação com a cultura oral em sua religiosidade, quer por meio de gestos encenados no entoar dos cantos, quer em seus falares, agires e fazeres, que materializam suas devoções e modos de ser.

É necessário apontar que o isolamento geográfico que marca os povos ribeirinhos não é absoluto e vem sendo cada vez mais atenuado na medida em que a civilização industrial avança. As comunidades mais próximas a centros urbanos têm acesso aos produtos da indústria, resultando na convivência entre a antena parabólica, a televisão, o celular, o fogão a gás e a geladeira com itens como o fogão a lenha e as ferramentas artesanais de pesca. O avanço das cidades e o desmatamento da Amazônia tornam cada vez mais comuns o convívio de novas ferramentas com as tecnologias criadas por homens e mulheres ribeirinhos.

Um dos principais problemas enfrentados por essa população é sua dependência visceral de um meio ambiente que ao mesmo tempo em que é, por um lado, imenso e resiliente, também é, por outro, frágil e codependente de uma série de fatores ambientais complexos, muitos deles alheios aos ribeirinhos. Estão, portanto, sujeitos a transformações ambientais que afetem o bioma amazônico, sejam elas transformações globais ou locais. Os próprios ribeirinhos não possuem práticas de sustentabilidade e manejo de impacto ambiental, relegando seu lixo e esgoto à capacidade de regeneração da floresta. Assim, paradoxalmente, mesmo tendo acesso a uma das maiores reservas de água potável do mundo, ainda é muito alta a presença de doenças transmissíveis por água contaminada ou mal tratada.

Além disso, uma ameaça bastante efetiva para o modo de vida ribeirinho é a construção de grandes obras de infraestrutura nos rios, principalmente hidrelétricas. A alteração no regime das águas resultante destas intervenções efetivamente destrói o tecido social onde estão baseadas as dinâmicas dessas populações.

Outro risco para essas populações são as pressões advindas do consumismo baseado no utilitarismo funcional que a sociedade contemporânea carrega e que já estão presentes no cotidiano dos moradores. Almeida aponta que na Ilha de Carás, município de Afuá, no Pará, por exemplo, “a televisão, todas as noites (o motor de luz é ligado a partir das 18 horas e desligado após a novela das nove da Rede Globo), traz para as residências as notícias do mundo, bem como fomenta o consumismo de crianças, jovens e adultos” . Os riscos do consumismo são agravados pelo relativo isolamento geográfico e pobreza destas populações.

Os ribeirinhos têm se organizado e lutam ativamente pela manutenção dos seus modos de vida e contra a destruição dos rios e florestas. Em 2008 foi criado o Movimento dos Ribeirinhos das Ilhas e Várzeas de Abaeteuba-Moriva/PA em parceria com a Comissão Pastoral da Terra, Cáritas e MST. Também há em Bequimão/MA o Movimento de Ribeirinhos e Litorâneos de Bequimão/MA – MORILIBE, que atua em parceria com o Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Bequimão, com a Pastoral da Terra do Maranhão e com o Fórum Carajás. As reivindicações geralmente partem do âmbito local (como a luta contra a possibilidade de produção de camarão em cativeiro, iniciativa que coloca em risco as comunidades ribeirinhas do Maranhão), mas todas têm em vista a luta sistêmica pela garantia do território ribeirinho e contra a degradação ambiental, as usinas hidrelétricas e as consequentes alterações de curso, cheia e vazante dos rios, a caça e pesca predatória,  a poluição despejada nos rios, exploração de madeira, extração mineral e demais ameaças.

 

Referências

ALMEIDA, E. Cultura e Identidades dos Ribeirinhos da Ilha dos Carás no Município de Afuá. Revista Cocar.*Citações 3 e 5.

CORRÊA, Sérgio Roberto Moraes. Currículos e saberes: caminhos para uma educação do campo multicultural na Amazônia. In: HAJE, Salomão Mufarrej (Org.). Educação do campo na Amazônia: retratos de realidade das escolas multisseriadas no Pará. Belém: Gutemberg, 2005. *Citação 1

GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Amazônia, Amazônias. 2. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2005. *Citação 2

CRISTO, A. Cartografias da educação na Amazônia rural ribeirinha: estudo do currículo, imagens, saberes e identidade em uma escola do município de Breves/Pará. 2007. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Pará, Belém: 2007. 165f

NEVES, D. Os ribeirinhos-agricultores de várzea: formas de enquadramento institucional, Novos Cadernos NAEA, v.12, n. 1, p. 67-92, jun. 2009.

NEVES, J. Ribeirinhos, desenvolvimento e a sustentabilidade possível. Presença Revista de Educação, Cultura e Meio Ambiente, v. 3, n. 28, p. 1-13, mai. 2004.

PACHECO, A. Oralidades e letras em encontros nos “marajós”: ribeirinhos e religiosos urdindo identidades culturais, Coletâneas do nosso tempo, v. 7, n. 7, p. 15-38, 2008.

REIS, M. ; MENEZES, E. Cultura e identidade: a valorização dos saberes populares ribeirinhos no município de Breves, ANAIS- I Coloquio de Letras da FALE/CUMB, Universidade Federal do Pará , fev 2014.  *Citação 4

SILVA, S. et. al. Rotinas Familiares de Ribeirinhos Amazônicos: Uma Possibilidade de Investigação, Psicologia: Teoria e Pesquisa, V. 26, n. 2, p. 341-350, Abr-Jun 2010.

Fim do conteúdo da página