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Retireiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 17h08 | Última atualização em Sexta, 15 de Julho de 2016, 15h19 | Acessos: 395

Características

“Nós conhecemos tudo aqui, todas as plantas, os bichos, peixes, sabemos nos defender, sabemos livrar da cheia e da seca. Nós cuidamo muito do lugar. Aqui não derruba, não queima, porque se não como é que vai viver? Na época das queimada fica todo mundo cuidando para não entra fogo” (B. P. S. 67 retireiro)

O conhecimento e a experiência adquiridos ao longo dos anos na região, o ir e vir nas épocas de seca e cheia, o trabalho com o gado, o reconhecimento do espaço e do ambiente, da fauna e da flora, são características fortes e que fazem um retireiro se reconhecer e ser reconhecido como tal, além das relações com mitos e crendices e as expressões artísticas, principalmente por meio de músicas.

Na região alagada do rio Araguaia, os retireiros trabalham a partir de um sistema de uso comum dos recursos, porém cada retireiro é proprietário de suas cabeças de gado. Algumas famílias possuem seus próprios retiros, que também podem ser utilizados pelos vaqueiros, porém o foco da relação comunitária é a subsistência de todos e do ambiente. Os retiros são espaços de trabalho para o dono do retiro, que mesmo não tendo a posse das terras é respeitado como tal pelos vaqueiros contratados. O vaqueiro é pago apenas ao fim do ano de trabalho e o pagamento se dá na forma de gado. O sistema mais aceito para pagamento estipula que o vaqueiro deve receber um bezerro de cada cinco que nascem na boiada que ele tomar conta.

A divisão do trabalho nos retiros dá-se entre os homens. Não há uma regra estabelecida sobre a presença de mulheres nessa divisão, porém as relações sociais estabeleceram que as elas permaneçam na cidade com os filhos, pelo menos durante a semana, para que possam  frequentar a escola. Assim, os afazeres domésticos são responsabilidade delas.

No inverno, nada impede que os homens participem dessa divisão doméstica, porém mais uma vez, há uma prevalência das mulheres nessas tarefas. Esses período também é marcado pela diversificação na economia doméstica e na composição da renda, que vai desde a pesca, praticada por toda a família, a outros trabalhos temporários. Porém, as mulheres continuam coadjuvantes no sustento das casas.

Outra informação relacionada à questão de gênero quando se trata dos retireiros do Araguaia está na denominação de mulheres como “mulher de retireiro”. Elas não são consideradas “retireiras”, afinal não lidam com o trabalho nos retiros, mesmo que participem ativamente da vida na comunidade.

Os retireiros são conhecedores da fauna e flora local. A atividade de caça não é tão comum hoje em dia, mantendo a necessidade apenas para resguardar o gado. A pesca é uma atividade realizada o ano todo, exceto na época de reprodução dos peixes. A maioria dos retireiros desconhece as legislações para crimes ambientais, caça e pesca.

Os animais e plantas são utilizados também para fins medicinais. Dos animais, usa-se principalmente a gordura (banha). Já as plantas nativas são utilizadas de diversas formas (alimento, infusão, banhos, chás etc.) e para diversos fins (construção de casas, cercas, utensílios, combustível, artesanatos, acessórios de limpeza etc.). Eles também estão ligados a mitos e crendices, como a lenda do boto, na interpretação do comportamento e canto de aves, plantas com poderes de cura ou que trazem sorte.

Os retireiros não costumam plantar, pois o solo não é propício. As exceções são o pequeno cultivo de mandioca, arroz, feijão, milho e algumas frutas para consumo próprio.

A socialização do conhecimento tradicional dá-se principalmente pela oralidade e observação. A educação escolar formal, apesar de ser importante para os povos e comunidades tradicionais, geralmente não incorpora em sua grade as especificidades, saberes, visão de mundo e cultura.

Nessa comunidade é possível ver uma convivência relativamente harmoniosa entre os costumes tradicionais e a modernidade, mas há de fato uma negação dessa cultura pela juventude que se aproxima e se identifica cada vez mais com a sociedade moderna.

Por outro lado, no que tange à propriedade e ao uso da terra, atualmente, áreas de terra firme encontram-se em poder de latifúndiários que cercaram as propriedades e mantém funcionários armados para evitar a entrada de retireiros que antes podiam utilizar toda a região. Agora esses proprietários alugam pastos para os retireiros nas enchentes, obrigando-os a pagar valores relativamente altos. Com o fim do período, o gado é levado de volta aos retiros e assim voltam à rotina até as próximas chuvas.

É diante deste quadro, de desafios e conflitos, que se mantém a comunidade retireira. O avanço das fronteiras agrícolas, a monocultura de soja e mamona na região, a falta de demarcação de terras de retiro e a definição de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) são as principais razões de conflitos, que geram consequências devastadoras para o modo de vida no retiro e que provocam nos retireiros a necessidade se afirmarem enquanto comunidade tradicional detentora de especificidades socioculturais cujos direitos diferenciados devem ser respeitados.

 

Referências:

SILVA, Regisnei Aparecido de Oliveira. Bases para educação ambiental em espaços não-escolarizados: um estudo com a Comunidade de Retireiros do Araguaia, Luciara-MT. Cuiabá: Universidade Federal do Mato Grosso, 2004. [108 p.]. Dissertação (mestrado) Universidade Federal de Mato Grosso. Programa de Pós-Graduação em Educação. *todas as falas de retireiros transcritas nesse texto foram retiradas desta referência.

SILVA, Regina; SATO, Michèle. Territórios e identidades: mapeamento dos grupos sociais do Estado de Mato Grosso - Brasil. Ambient. soc., Campinas,  v. 13, n. 2, dez.  2010.

BISPO, Marcileia Oliveira. A educação ambiental à luz de distintas representações e territorialidades. Rev. Eletrônica Mestr. Educ. Ambient. ISSN 1517-1256, v. 29, julho a dezembro de 2012.

Youtube. (2013, Outubro 17). Retireiros do Araguaia e sua verdadeira história [arquivo de vídeo].  Disponível em: (Acesse o vídeo.).  Acesso em: 07 set. 2014.

Youtube. (2013, Outubro 17). Retireiros do Araguaia e sua verdadeira história (continuação) [arquivo de vídeo].  Disponível em: (Acesse o vídeo.). Acesso em: 07 set. 2014.

COMUNICAÇÃO AXA. Casa de líder dos Retireiros do Araguaia é queimada e aumenta tensão em Luciara/MT. In: Articulação Xingu Araguaia. Disponível em: (Acesse o site.). Acesso em: 07 set. 2014.

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