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Quebradeiras de Coco Babaçu

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 16h49 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 19h01 | Acessos: 146

Características 

“Olha a quebra do coco foi quem me criou, criou nossos filhos, nossos avós”

As quebradeiras encontram-se em áreas de convergência entre a Floresta Amazônica, o cerrado e o semiárido, onde a presença dos babaçuais é mais significativa. Sua relação com a terra e com a palmeira é muito íntima. É comum ouvir das mulheres que as palmeiras são como mães, porque ofertam sua forma de sobrevivência e de sua família.

É possível visualizar esse mesmo sentimento nos demais membros da comunidade. Os homens se envolvem mais nas atividades de agricultura, principalmente de arroz, milho, mandioca e feijão, mas em algumas comunidades eles ainda participam do processo de quebra do coco. Alguns homens participam da etapa da extração do coco e outros auxiliam suas companheiras a buscar o coco para que elas possam quebrar em casa, por exemplo. As crianças também são envolvidas na atividade.

Atualmente, as comunidades se organizaram e passaram a comercializar diretamente os produtos advindos da palmeira, como azeite, leite, farinha de mesocarpo, sabonete, sabão, cestos, carvão, entre outros. As associações e cooperativas também facilitaram o processo de comercialização nacional e internacional, por meio da aquisição de materiais, ferramentas de trabalho e insumos, compra da produção das quebradeiras por um preço justo, beneficiamento do coco e inserção dos produtos finais (com maior valor agregado) em diversos mercados. A cooperativa também atua promovendo conscientização ambiental e cursos diversos.

Diante de todas essas informações, parece que a realidade das quebradeiras evoluiu nos últimos anos, mas essa ainda não é uma verdade. Os conflitos ainda são muitos. As áreas de babaçuais são consideradas muito violentas, principalmente pela relação com a concentração fundiária, práticas de queimadas e derrubadas, de agropecuária extensiva, de grilagem, presença de siderúrgicas etc. Essas dificuldades não são recentes, havendo, inclusive, exemplos de movimentações dos governantes que foram de encontro ao movimento das quebradeiras, como a Lei de Terras de 1969, conhecida como Lei Sarney, que se caracterizava pela expulsão do campesinato, privatização, concentração fundiária e pecuarização em larga escala.

Contudo, há também movimentos de organizações que são solidárias à causa das quebradeiras de coco, principalmente as ligadas à Igreja Católica. É comum a presença dessas organizações no suporte às lutas contra o trabalho escravo e à garantia do direito à terra. Outras organizações, como Pastoral da Terra e sindicatos de trabalhadores rurais, auxiliam com oferta de  capacitações focadas em sustentabilidade, melhoria de métodos de produção (a fim de otimizar o uso dos recursos e diversificar a oferta de produtos a partir do coco de babaçu) e comércio, possibilitando a inserção em mercados maiores e mais distantes das áreas de extração do babaçu.

O dia a dia dessas mulheres é muito cansativo, pois precisam se dividir entre o trabalho doméstico e o trabalho com o coco. A rotina da maioria é acordar com o sol ainda raiando, preparar café e almoço para a família e para levar consigo, seguir andando até os locais de quebra, por caminhos nem sempre muito seguros, passar o dia com outras mulheres na lida, retornar no fim da tarde para terminar os afazeres domésticos e cuidar das crianças e, eventualmente, dos idosos. Embora essas mulheres tenham ganhado espaço e força política fora de casa, é raro uma relação similar na vida privada, onde ainda impera a lógica da divisão sexual do trabalho, com tarefas específicas para homens e mulheres. Porém, há exemplos recentes de uma possível mudança de comportamento por parte dos companheiros, que reconhecem a carga de trabalho feminina e são mais dispostos a rever funções dentro e fora de casa, com maior igualdade de gênero.

Outra característica marcante das quebradeiras são os cânticos, cantigas, versos de trabalho, poesias e orações, tanto para os momentos de quebra do coco, como para outros momentos coletivos como os encontros realizados pelo MIQCB.

Em diversos estados onde se encontram as comunidades tradicionais de quebradeiras, formas de organização de luta locais e regionais têm ocorrido desde meados dos anos 80, tornando-se cada vez mais fortes e articulados. O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB se iniciou como forma de enfrentamento ao cercamento dos espaços onde crescem as palmeiras e uma série de outros conflitos, realizando diversos encontros e atos políticos. Seu primeiro encontro ocorreu em 1991 e o movimento se organiza em seis regionais. No Maranhão, há três regionais; os estados do Pará, Tocantins e Piauí contam com uma regional cada.

 

Referências

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BARBOSA, V. O. Mulheres do babaçu: gênero, maternalismo e movimentos sociais no Maranhão. 2013. 266 f. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013. Disponível em: < http://www.historia.uff.br/stricto/td/1449.pdf>

BARROS, V. A concepção de educação das quebradeiras de coco babaçu: um estudo preliminar. [s. l.], [s. d.]. [8 p.]

CORDEIRO, R. R. Babaçu livre: a enunciação do conflito no campo jurídico pelas quebradeiras de coco, no Maranhão. 30º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais, 24 a 28 de outubro de 2006. [20 p.]

FIGUEIREDO, L. D. Empates nos babaçuais: do espaço doméstico ao espaço público - lutas de quebradeiras de coco babaçu no Maranhão. 2005. 198 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Núcleo de Estudos Integrados sobre Agricultura Familiar, Belém, 2005. Curso de Mestrado em Agriculturas Amazônicas.

HAGINO, C. H. M. S. Quebradeiras de coco babaçu: identidade, conflito sócio-ambiental e subsistência. 31º Encontro Anual da Anpocs. Caxambu, out. 2007.[22 p.]

Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia. Quebradeiras de coco babaçu do Tocantins. São Luís, 2005 (Movimentos sociais, identidade coletiva e conflitos, 3)

REGO, J. L. ANDRADE, M. P. História de mulheres: breve comentário sobre o território e a identidade das quebradeiras de coco babaçu no Maranhão. Agrária. São Paulo, n.3, p. 47-57, 2006.

SILVA NETO, N. M. Lei do babaçu livre: a juridicidade específica das quebradeiras de coco babaçu. [s. l.], [s. d.]. [26 p.]

Site. Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Relatório As quebradeiras de coco babaçu e a luta pelo fim da sujeição no campo (Acesse o site.).

Site. Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. (Acesse o site.).

Site. Articulação Nacional de Agroecologia. Caravana Agroecológica: A importância do Coco Babaçu no Tocantins. (Acesse o site.).

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