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Piaçaveiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 16h07 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h57 | Acessos: 482

Características

Localização/Bioma: A piaçaba é encontrada na Bahia, Sergipe, Alagoas e Amazonas, com incidência de duas espécies diferentes. A espécie de piaçaba oriunda da Bahia, e encontrada também em Sergipe e Alagoas, domina o mercado, com 90% da produção, por conta de suas características físicas (sua fibra é mais rígida e grossa, consequentemente mais resistente). A outra espécie de piaçaba, mais elástica, é encontrada na Amazônia, além de outros países da América Latina.

“Piaçaba é um nome de origem tupi que significa “planta fibrosa” e tem sido usado para designar pelo menos três espécies diferentes de palmeiras nativas do Brasil, cujas fibras servem para a confecção de vassouras. No Acre, na região do vale do rio Juruá, ocorre uma dessas espécies.”

Conforme citado anteriormente, a atividade de extração da piaçaba é predominantemente masculina e, em alguns casos, os homens passam de semanas a meses nos locais de coleta, longe de suas famílias, que ficam nas comunidades. Em outros casos, as famílias seguem o piaçabeiro ao local da coleta, ocasionando prejuízos aos estudos das crianças. No Amazonas, a piaçaba é encontrada no meio da floresta, dispersa a grandes distâncias. No Nordeste, a piaçabeira é encontrada na Mata Atlântica, tanto no litoral quanto mais para o interior dos Estados (principalmente sul da Bahia), além de ser cultivada. Cresce com mais facilidade do que outras plantas em solos com poucos nutrientes e arenosos, exigindo pouca manutenção das árvores.

Os piaçabeiros, assim como vários povos extrativistas, vivem explorados por atravessadores, tratados na linguagem do trabalho como patrões, sendo os piaçabeiros conhecidos como fregueses destes. O patrão impõe ao piaçabeiro a servidão por dívida, cobrando muito mais caro em todos os insumos necessários ao trabalho e disponibilizados exclusivamente pelo mesmo (como comida, combustível e outros víveres), algumas vezes roubando no peso das balanças e cobrando taxas de 10 a 30% sobre a produção total, o que leva o produtor a quase sempre contrair dívidas, ao invés de ganhar dinheiro sobre a produção.

Essa forma de exploração sobre o trabalho é mais injusta ainda diante da constatação de que muitas vezes as terras das quais os piaçabeiros extraem as fibras são de propriedade da União, mas mesmo assim os atravessadores as reivindicam para si e lidam com ela como se fossem “donos” dessas terras. O trabalho do piaçabeiro está necessariamente subordinado ao patrão. Além da exploração do patrão, os piaçabeiros não são pagos para fazer a limpeza do terreno, construir o acampamento nem para abrir as estradas que servirão para levar o produto extraído da mata até o local de armazenamento. O analfabetismo é um fator que reforça diretamente a exploração, pois sem saber ler e escrever os trabalhadores ficam completamente nas mãos dos patrões, que recorrentemente enganam os fregueses nas contas e pesagens.

 “A gente pega duzentos reais de abono com o patrão e já paga cinquenta de juros. O fardo de farinha a gente compra de 75 reais, o quilo de café de 15, o açúcar de 2,50, feijão de 4 reais e a gasolina de 5 reais o litro.” (Publicação lançada em julho de 2007)

“Os trabalhos de limpar igarapés, montar a colocação, abrir o caminho, pescar, caçar, fazer a condução da piaçaba quem assume é o piaçabeiro. O patrão não paga por estes serviços.”

As fibras extraídas são encontradas na palmeira de Piaçaba. O processo de extração consiste em: bater e pentear a fibra ainda na palmeira para espantar e derrubar insetos, animais venenosos e sujeiras; cortar a fibra em sua base; unir o que foi cortado de pelo menos dez palmeiras e transformar em um fardo; carregar nas costas para o local de beneficiamento (colocação); na colocação, os fardos são rearranjados como tora, cabeça ou pacote e armazenados até o momento da pesagem.

Quando os trabalhadores precisam viajar por longos períodos de tempo, deixam um rancho (farinha, sabão, café, açúcar, arroz, feijão, leite) para suas famílias e levam outro para o acampamento, ambos adiantados pelo patrão.

“Quando meu marido foi embora ele deixou sim o rancho, mas não dá para quem vai passar três a quatro meses longe. Quando a gente vai na casa dos patrões eles vem com a maior ignorância.”

Existem dois grupos sociais distintos que realizam a extração da piaçaba: os da cidade e os do interior. Os piaçabeiros da cidade residem em áreas urbanas ou nas periferias, ficam sempre mais de três meses nos acampamentos para coleta da piaçaba, geralmente sem suas famílias; possuem uma lógica de trabalho mais produtiva, com a intenção de obter algum lucro ao fim do contrato, com menor cuidado à preservação das palmeiras e das matas e estilo de coleta predatório. Os piaçabeiros do interior, por residirem mais próximos às matas, trabalham com toda a família e ficam por períodos curtos de tempo nas áreas de coleta. Estes dificilmente têm algum ganho ao final do tempo de trabalho. Além disso, não exploram tanto as plantas e possuem uma relação mais pautada na conservação das palmeiras. Os indígenas extrativistas pertencem ao segundo grupo.

Os piaçabeiros do interior residem em comunidades com uso coletivo da terra, além da proximidade dos locais de coleta. O uso da terra comunal para fazer roças garante certa autonomia deste piaçabeiro quanto à exploração do seu trabalho, pois a piaçaba não é a única fonte de subsistência da comunidade. Além disso, estas comunidades ainda extraem outros produtos não madeireiros da mata. Quando estão no igarapé acampados, geralmente organizam os grupos por parentesco ou afinidade e são marcados pelo sentimento de companheirismo e apoio mútuo.

No sul da Bahia, em uma região de remanescentes de Mata Atlântica, parte dos extrativistas também se dedica à confecção de artesanato, bijuterias e artigos domésticos e decorativos (vassouras, bandejas, vasilhas, luminárias, etc), por meio de cooperativas que comercializam o produto, como a Cooprap. Dessa forma, garantem o pagamento de valores justos pelas arrobas de piaçaba, além de beneficiar o produto e inseri-lo no mercado, beneficiando toda uma cadeia produtiva e quebrando a lógica de exploração do trabalho dos piaçabeiros pelos patrões. Essa iniciativa também beneficia a preservação do meio ambiente, pois com o pagamento do preço justo e a saída do atravessador, os extrativistas têm uma renda mais justa sem a necessidade de sobrecarregar a extração. Além dos usos citados acima, a piaçaba e seus insumos são  aproveitados como enchimento de estofados na indústria automotiva, para fazer cordas de navios, cobertura de quiosques e casas, além de a amêndoa do piaçabeiro ser comestível e aproveitável para fabricar óleo comestível e farinha e a casca ser aproveitada para biojoias, pois seu peso e dureza são similares as do marfim.

Vários municípios do sul da Bahia se dedicam à extração da piaçaba, seja ela cultivada ou não. Nestes locais, costuma haver uma cadeia produtiva mais complexa e diversificada de produção, com segmentação de funções e beneficiamento do produto local, além da venda da piaçaba recém cortada.

Recentemente, alguns patrões têm sido denunciados pelo Ministério Público e Ministério do Trabalho por maus tratos e exploração. Este fato ainda não mudou de forma substancial as relações impostas, mas tem diminuído a sensação de impunidade. A partir da atuação de diversos órgãos, tais como o Ministério Público federal, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho e FUNAI, a figura do patrão vendo sendo combatida em vários territórios amazonenses e nas terras consideradas livres (terras da União). Em contraposição, já são vivenciados uma série de problemas decorrentes da falta dos patrões, por conta justamente da falta de autonomia de diversas comunidades para lidarem sozinhas com as questões que os patrões cuidavam anteriormente, como o acesso a bens industrializados, comida e combustível no período da coleta, dificuldade de obtenção de crédito e problemas com alcoolismo e brigas.

Algumas iniciativas, como a Cooperativa Mista Agroextrativista dos Povos Tradicionais do Médio Rio Negro – COMAGEPT, estão mobilizando extrativistas e quebrando a cadeia de exploração e semiescravidão nas quais vivem muitos piaçabeiros. O trabalho das cooperativas consiste em eliminar o intermediário, beneficiar o produto aumentando o valor agregado dele e negociar no mercado a preços justos, além de prestar assistência aos cooperados e atuar como um interlocutor entre comunidades extrativistas, governo e empresas na defesa dos interesses dos povos e comunidades tradicionais ligadas a ela.

É importante ressaltar que a piaçaba consta como um dos produtos garantidos pela PGPM-Bio – Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade desde 2009/2010. Essa política vem em continuidade à PGPM, criada na década de 40 com o intuito de apoiar a produção agrícola e regular o preço mínimo dos grãos. A PGPM-Bio consiste em medidas protetivas para os produtores extrativistas, povos e comunidades tradicionais. Segundo relatório técnico da Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB/BA, em setembro de 2012 o valor médio anual do Kg da piaçaba bruta ficou em R$ 1,20 na Bahia e R$ 0,99 no Amazonas, enquanto o preço da piaçaba beneficiada se manteve em R$ 1,98 na Bahia e R$ 1,15 no Amazonas. Estes valores se baseiam nos valores mínimos aplicados pela Política em questão.

Algumas comunidades amazonenses de extração são indígenas. Apesar de sua ascendência, muitas já perderam os costumes, a base étnica e a língua, pois já passaram por diversos processos de aculturação e mudanças bruscas em suas formas de vida tradicionais. Destes, muitos hoje são católicos e evangélicos. Entretanto, recentemente, as políticas públicas voltadas para os povos e comunidades tradicionais têm levado vários indivíduos e comunidades a resgatarem a ancestralidade étnica ameaçada.

 

Referências

Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia Série: Movimentos sociais, identidade coletiva e conflitos.Piaçabeiros do Rio Aracá, Barcelos – Amazonas. Manaus, julho 2007. 11 p.

FERREIRA, E. J. L. A exploração da palmeira piaçaba no vale do rio Juruá, Acre. Revista Cidadania e Meio Ambiente, Rio de Janeiro, 29 nov. 2005. (Ecodebate)

OLIETE J. I. Piaçabeiros e piaçaba no médio rio Negro (Amazonas-Brasil), Socioeconomia da atividade extrativista e ecologia da Leopoldinia piassaba Wallace. Manaus: Universidade Federal do Amazonas 2008.  107p.: il. Dissertação (mestrado), INPA/UFAM.

MEIRA, M. O tempo dos patrões: extrativismo da piaçaba entre os índios do rio Xie (Alto Rio Negro).Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1993. 127 p. Dissertação (mestrado), Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Vídeo. Produção de Piaçava na Bahia. (Acesse o vídeo.). Acessado em: 13/07/2016

Notícia. Piaçaba. (Acesse a notícia.). Acessado em: 13/07/2016

Companhia Nacional de Abastecimento - CONAB. Conjuntura Mensal – Piaçaba. Setembro de 2012, CONAB. (Acesse o arquivo em PDF.). Acessado em: 13/07/2016

Reportagem. A piaçaveira desponta como cultura de destaque na economia da região sul da Bahia. (Acesse a notícia.). Acessado em: 13/07/2016

Piaçava no Estado da Bahia. (Acesse o vídeo.). Acessado em: 13/07/2016

Documentário. Produção Piaçava Bahia. (Acesse o vídeo.). Acessado em: 13/07/2016.

TV Cultura. Repórter Eco sobre o manejo sustentável da piaçaba na Bahia. (Acesse o vídeo.). Acessado em: 13/07/2016

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