Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Características
Início do conteúdo da página

Pantaneiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 15h48 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h25 | Acessos: 304

Características

Localização/Bioma: Pantanal, localizado nos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.    

O pantanal é caracterizado por um regime de precipitações com dois períodos distintos, o da seca (abril a setembro) e da cheia (outubro a março). As regiões pantaneiras passam por inundações moderadas por três a cinco meses ao ano. O território é composto por terrenos baixos e planos e pela passagem do Rio Paraguai e seus afluentes, com mudança constante dos cenários naturais. No período de cheia, a água dos rios cobre as várzeas e toda a vegetação por centenas de metros adiante, criando lagos e rios temporários. Os animais nessas épocas ficam ilhados nas “cordilheiras”, espaços mais altos que não são inundados. No período de vazante as águas baixam, as lagoas transformam-se em barreiros e a paisagem se transforma. O ritmo das águas influencia diretamente as formas de vida e as atividades cotidianas dos pantaneiros. O pantanal é considerado pela Unesco como reserva da biosfera e patrimônio ambiental e cultural da humanidade, contando com uma das maiores reservas de biodiversidade de fauna e flora do planeta e sendo a maior área inundável do planeta. Em 1981, foi criado o Parque Nacional do Pantanal no município de Poconé/MS. Este parque possui 135.000 hectares de área inundável, cerca de 1% do pantanal.

“Pantanal é a denominação que se dá a um habitat úmido, ou melhor, a uma considerável superfície banhada pelo complexo hidrográfico formado por centenas de rios que nascem nos planaltos adjacentes, deságuam no rio Paraguai e lhe dão uma fisionomia especial”

Acostumados ao ciclo cheia-vazante-seca, os pantaneiros desenvolveram como principal atividade de subsistência a pecuária por meio de saberes tradicionais, fato que faz com que esta atividade econômica pouco afete a paisagem e as condições ecológicas locais. Nesse método de criação, o rebanho é solto nos pastos nativos, sem necessidade de muitos cuidados por parte do criador. Esse pasto nativo se renova pela força das águas na época de cheia e nos nutrientes trazidos por elas, não sendo necessário o uso de insumos para melhorar suas características. Durante a seca, o fogo é necessário (intencional ou não) para livrar os pastos das ervas daninhas e dos animais que ameaçam os rebanhos. A pecuária praticada no Pantanal quase não alterou a paisagem local em seus dois séculos de existência, adequando-se ao ambiente. Há também o uso do cavalo pantaneiro, espécie mais adaptada ao manejo tradicional de gado na região e às grandes áreas alagadas.

As fazendas pantaneiras são diferentes das demais fazendas para criação de gado, pois respondem diretamente às especificidades locais ligadas à seca e à cheia. Essas fazendas geralmente não possuem cercados, e existem relatos locais de que o gado de uma não chega a se misturar ao gado da outra fazenda. Há também as invernadas, ou locais fechados que permitem cuidados especiais com o gado. Essas fazendas pertencem aos pantaneiros residentes.

“O trabalho com o gado no campo exige que os vaqueiros se desloquem em grandes extensões. Na época das águas, as estradas de acesso são encobertas e tornam-se invisíveis na paisagem, entretanto, o pantaneiro possui uma noção de espaço admirável. Apesar da semelhança entre os locais, orienta-se no campo percebendo marcas com significados individuais raramente perdendo o rumo, demonstrando estar adaptado à mutabilidade da paisagem.”

Os pantaneiros também conseguem distinguir os lugares menos suscetíveis a inundações, destinando-os a moradia, conservação dos instrumentos de trabalho e cuidado com o gado. Dessa forma, constroem as moradias próximas às baías, pela comprovada impossibilidade de esses espaços serem inundados. Essa constatação vem da observação direta da natureza e dos seus ciclos.

As moradias dos criadores de gado são simples, assim como as vestimentas. Antigamente não havia praticamente distinção entre o fazendeiro e o peão, mas atualmente há uma grande discrepância entre a vida dos fazendeiros, com alto nível de educação e modos burgueses, e a vida dos peões, mais simples e baseada nos conhecimentos empíricos da vida pantaneira. Alguns peões moram com suas famílias em casas de madeira próximas à sede da fazenda, com relativo conforto. Outros preferem morar nos retiros, lugares mais afastados, com casas de pau-a-pique e chão de terra batida. Outros preferem enviar suas famílias para cidades e trabalhar sozinhos nas fazendas. As crianças estudam em sua maioria em escolas dentro de fazendas que abrigam núcleos educacionais.

É importante ressaltar a diferença entre as fazendas que se dedicam à pecuária no pantanal: as fazendas tradicionais criam o gado pantaneiro em equilíbrio com a natureza a partir de práticas, técnicas e saberes acumulados há centenas de anos, alterando pouco a paisagem, sob a posse de moradores que entendem a fazenda como uma atividade familiar e continuidade do seu modo de vida e com forte senso comunitário, inclusive mantendo os campos abertos para uso comum; já as novas fazendas adquiridas por pessoas de fora que não moram na região (muitas vezes por preços irrisórios), são administradas como negócios que precisam ser  cada vez mais rentáveis, sem o compromisso social, comunitário e ambiental com o pantanal, introduzindo espécies exógenas de gado e desmatando grandes áreas para cultivo de pasto com a plantação de espécies gramíneas também exógenas, contribuindo para o agravamento do desequilíbrio ambiental, explorando a comunidade local, cercando os campos e prejudicando o modo local de criação pastoril.

“Ligado principalmente às atividades da pecuária que são predominantes no Pantanal, tanto do ponto de vista histórico-cultural, quanto sócio-econômico, o pantaneiro desempenha várias funções inerentes à lida com o gado, como a de gerente ou capataz, de peão ou de vaqueiro.”

Para o transporte, eram utilizadas canoas feitas a partir de técnicas indígenas, feitas de um tronco cavado com machado. São usados hoje também o barco a motor, o batelão (canoa para carga) e a montária, embarcação usada com a mesma finalidade do cavalo para trabalhar com o gado na época das cheias e vazantes.

Boa parte dos materiais necessários aos fazendeiros, como cordas e recipientes de barro, é feitos por eles próprios com os materiais encontrados na região.

Outra atividade econômica importante para os pantaneiros é a pesca, feita ao longo dos rios e lagos perenes e transitórios. A pesca de iscas vivas, crustáceos e diversas espécies de peixes nativos é também a base da economia local, junto ao extrativismo, ao plantio para subsistência e à criação de pequenos animais.

Os pantaneiros, na figura das benzedeiras e raizeiros, possuem amplo conhecimento tradicional a respeito do uso da rica diversidade de ervas, raízes, cascas, folhas e frutos para os mais variados fins. Estes conhecimentos remetem principalmente ao seu passado indígena.

“Outra peculiaridade do pantaneiro é o seu conhecimento e uso das plantas. Longe dos médicos e das farmácias o pantaneiro tem as suas receitas medicinais para curar as doenças, machucaduras e os ferimentos causados pelo ataque dos animais selvagens.”

Um aspecto importante da cultura pantaneira é a música sertaneja, que ressalta o modo de vida, os valores e as belezas da vida na região. A cultura pantaneira se identifica com os modos de vida dos caboclos e dos caipiras, caracterizados pela simplicidade e pela relação direta com a terra em que vivem. Essa música sofreu bastante influência de músicas regionais paraguaio-guarani, gaúcha e argentina.

 “O momento da pesca, da preparação de artefatos, das caminhadas nas roças e pastos, do cultivo de subsistência, da condução da boiada e outros, são ricos no repasse do conhecimento, pautado na forte oralidade que permeia essas ações.”

Recentemente, a necessidade de aumento da produtividade provocou mudanças nas formas de manejo tradicional do gado, resultando na introdução de mais espécies de pastagens forrageiras e no aumento do número de cabeças de gado. Isso causou rupturas na cultura local e transformações negativas que descaracterizam a paisagem e o equilíbrio ecológico. O crescente turismo ambiental e a pesca esportiva também contribuem para a modificação no estilo de vida e produção pantaneira, ao estabelecer novos usos para as áreas tradicionalmente ocupadas apenas pelos pantaneiros.

Os pantaneiros tem enfrentado há anos diversos problemas relativos ao cercamento de terras altas de uso comum para alimentação do gado nas épocas de cheia, compra de grandes porções de terra para criação de novas fazendas com produção extensiva de gado, preços elevados para o arrendamento de terras, escassez de peixes, impedimento da atividade da pesca junto à criação de reservas ambientais com restrição a diversas práticas tradicionais, grande exploração turística do pantanal e, não menos importante, a degradação ambiental contínua com extinção de espécies da fauna e flora, desmatamento para plantação de pastagens para o gado, assoreamento e poluição dos rios e margens. Esses problemas e conflitos constituem grande ameaça à sua cultura e modos de vida tradicionais.

 

Referências

ARANTES, M. H. A construção da identidade de crianças pantaneiras. Campo Grande, Universidade Católica de Dom Bosco, 2007. 140 p. (Dissertação de Mestrado)

BIGATÃO, R. Pantanal na visão da mídia: da inexistência ao paraíso: uma abordagem sobre as inter-relações do meio e da produção cultural. Revista Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade. n. 3-4,  jun. 2010. 22 p.

GALDINO, Yara da Silva Nogueira. A casa e a paisagem pantaneira percebida pela comunidade tradicional Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso. 2006. Dissertação de mestrado. Cuiabá, UFMT, 2006. 80 p.

GONÇALVES, D. F. O homem pantaneiro, suas crenças e atividade de turismo: um olhar a partir da sub-região de Miranda. Dissertação de mestrado. Blumenau: Universidade Regional de Blumenau, 2008. 112 p.

GONÇALVES, J. P.; EDDINE, E. A. C. O som pantaneiro: acordes para a constituição da identidade, da cultura e da educação dos sujeitos. 10 p. Este trabalho faz parte da pesquisa intitulada “A educação no processo de constituição do sujeito: o dito nas produções e o feito no cotidiano” desenvolvida pelo GEPPE – Grupo de Estudos e Pesquisa em Psicologia e Educação financiada pela FUNDECT – Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul.

LEITE, Eudis Fernando. Anotações sobre cultura e natureza nos Pantanais. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 9, n. 1, 2005. p. 167-188

PINTO, Maria Leda. Discurso e cotidiano: histórias de vida em depoimentos de pantaneiros. 2007. Tese (Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, University of São Paulo, São Paulo, 2007. 246 p.

Povoado Pantaneiro de Joselândia, Mato Grosso. Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil. Brasília, 2007. 11 p. ISBN 85-86037-20-6

ROSSETTO, Onélia Carmem; BRASIL JUNIOR, Antonio C. P.. Cultura e desenvolvimento sustentável no pantanal mato-grossense: entre a tradição e a modernidade. Soc. estado.,  Brasília ,  v. 18, n. 1-2, dez.  2003 .

Site Expedição Pantanal. (Acesse o site.).

Site Planeta Pantanal.  (Acesse o site.).

Fim do conteúdo da página