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Morroquianos

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 15h40 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h53 | Acessos: 362

Características

Localização/Bioma: Cerrado – Mato Grosso – principalmente no município de Cáceres, em comunidades como Nossa Senhora do Carmo do Taquaral, Nossa Senhora da Guia, Água Branca, Guanandi, Bocaina do Cascavel, Santana etc.

Os morroquianos ocupam seus territórios com sistemas agrícolas em um sistema de campesinato tradicional, sendo a família a base da produção e consumo dos bens gerados, pautados em uma forma própria de manejo dos bens naturais específicos da região, tendo como uma das práticas agrícolas o corte e queima. O parentesco e a comunidade rural são as bases da organização social morroquiana.

“Os camponeses (...) desenvolvem práticas de adaptação ao agroecossistema local que se caracterizam pelo uso ordenado de terras férteis dos vales para produção de plantas de ciclo anual ou perene, de alto valor nutritivo (milho, arroz, feijão, mandioca, entre outras), e o uso das terras de vegetação baixa de Cerrado para a criação de gado, a caça e a coleta vegetal. Historicamente, estes camponeses se autossustentaram e ocuparam seu lugar na economia regional como lavradores e produtores de alimentos.” 4

Da mesma forma, seus conhecimentos tradicionais são frutos de gerações de experimentação, com longos anos de aprendizagem para manejo dos recursos naturais e transmissão desses conhecimentos com baixa quantidade de inovações tecnológicas implantadas ao longo do tempo em suas práticas agrícolas. Os morroquianos podem ser entendidos como produtores de diversidades, pois uma de suas preocupações é a troca de sementes para garantir diversidade e variabilidade genética entre as espécies cultivadas.

O papel da troca de sementes, insumos e conhecimentos nas comunidades mostra a importância da interação social e dos sistemas de solidariedade e apoio mútuo, sendo o conhecimento aqui entendido como um bem comum que deve ser coletivizado. As trocas de sementes podem ser informais (entre parentes e vizinhos, com algum tipo de interação social) ou formais, com instituições responsáveis pelo desenvolvimento agrário. As aquisições que passam pela interação social podem adquirir o caráter de troca, presente, retribuição e compra. Essas trocas reforçam as redes de diálogo e interação social dos morroquianos.

“As trocas de sementes demonstram a constituição de “redes sociotécnicas” que são redes de intercâmbios, fluxos de informação e de práticas relativas à produção agropecuária que são mantidas pelos agricultores e os diversos atores com os quais se relacionam em nível local. Estes espaços são desenhados, de um lado, pelas relações de interconhecimento e de proximidade (redes de diálogo técnico) e, de outro, pelos serviços mútuos para a produção ou redistribuição dos produtos e conhecimentos (redes de ajuda mútua).” 5

O modo de produção morroquiano se relaciona com o bioma de forma complexa, com a prática da agricultura, pecuária, caça, coleta e pesca. A produção morroquiana se organiza em sítios, que são um conjunto de espaços construídos e beneficiados para usos distintos. O território é dividido de forma orgânica e sem delimitações claras entre espaços de roça, hortas, criação de animais, mato e capoeiras. Esses espaços adquirem funções rotativas ao longo do tempo, sendo uma roça uma possível capoeira amanhã, ou o contrário. Além disso, utilizam no seu sistema produtivo espaços que se encontram fora dos espaços citados acima, principalmente para caça e coleta.

“A produção de alimentos é considerada principal porque emprega a maior parte da força de trabalho e do tempo da família camponesa, além de expressar uma identidade internalizada nas representações do grupo, como é a de lavrador ou produtor de roças.” 6

Os morroquianos geralmente detém seus próprios meios de produção e vendem seu excedente nos mercados locais. Alguns poucos camponeses não detêm todos os meios de produção, e nesse caso praticam mais a agricultura de subsistência. Eles possuem um sistema de manejo natural complexo, levando em conta especificidades do ambiente para extrair o seu melhor de forma sustentável. Esse conhecimento é fortemente baseado na observação empírica dos ciclos da natureza e de crescimento e variedade genética das plantas.

Em torno das casas morroquianas há os quintais, locais de plantação de espécies florestais e gêneros alimentícios que não são encontrados nas roças. Nestes espaços também ocorre a criação de animais de pequeno porte e domesticados. Há uma grande diversidade de quintais, levando-se em conta o tamanho deste, a disponibilidade de tempo e as necessidades da família proprietária do quintal, dentre outros aspectos. Dessa forma, são espaços funcionais do ponto de vista da complementação da alimentação, da ornamentação e do cuidado com a casa em si.

“Além de lugar de cultivo e manejo de plantas úteis do ponto de vista social e econômico, o quintal é espaço doméstico de trabalho, encontros, entretenimento e recreação, festas e cultura. Os quintais são usados para suprir parte das necessidades nutricionais da família ao longo do ano, além de produzir excedentes comercializáveis. Em muitos casos, a diversidade presente nos quintais tem importante função no conjunto de práticas relacionados a dádivas.” 7

Homens e mulheres desempenham papéis diferentes, mas complementares, dentro da cultura morroquiana. Enquanto o trabalho masculino tem mais um caráter de dedicação à variabilidade genética focada para espécies com a finalidade de alimentação, o trabalho feminino é mais dedicado à riqueza de espécies destinadas a usos diversos (plantas medicinais, para alimentação, ornamentais, etc). Além disso, as mulheres são as principais responsáveis pela troca de sementes e plantas por meio do manejo dos quintais.

 “Percebemos mais uma complementaridade ou continuidade do trabalho na relação homem/mulher e dessas com os jovens e os velhos, do que uma oposição. Não existem, de maneira exclusiva, locais e atividades masculinas ou femininas, e cada um dos componentes da família tem graus distintos de participação nos mesmos espaços de trabalho, cada um realizando sua parte no mesmo processo. Assim, não existe exatamente uma oposição entre trabalho produtivo e reprodutivo, entre casa e roça e essas dimensões da vida possuem um caráter de continuidade.” 8

Os morroquianos enfrentam diversos problemas ligados à invisibilidade social a que são submetidos pelas pessoas de fora das morrarias, os fazendeiros ligados ao agronegócio, a administração municipal e alguns órgãos públicos federais. No processo de regularização fundiária, as instituições agrárias federais desconsideraram a presença das comunidades tradicionais no local, classificando-os como ocupantes ou posseiros da terra.

“No final dos anos da década de 1970 a Morraria passa a ser alvo de vários conflitos agrários devido às disputas pela terra travadas entre camponeses e latifundiários. Ocorreram despejos promovidos por fazendeiros, o assassinato de dois “grileiros” na região, além da proibição aos morroquianos e outros moradores do direito de ir e vir. Assim, em 1983 o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) propõe a realização da regularização fundiária de comunidades da Morraria, através de um processo de discriminatória de terras e de arrecadação sumária. Ainda que o INCRA tenha tomado conhecimento de documentos comprobatórios de aquisição de terras pelos ascendentes dos camponeses tradicionais das comunidades locais no início do século XX comprovando sua posse ancestral (tal como consta no processo), estes foram considerados “ocupantes” (“sem documento de propriedade”) ou “posseiros” e não detentores de domínio da terra. Neste processo foram omitidas as formas não convencionais de uso da terra.” 9

Partindo da necessidade de manter e fortalecer sua identidade própria, em Cáceres foi criada há alguns anos a Associação Memória Viva na comunidade de Taquaral, para articular e defender os interesses das comunidades tradicionais morroquianas. Por meio de parcerias, são realizadas capacitações em agroecologia e outros temas relacionados, bem como encontros.

 

Referências

AGUIAR. M.V. A. Complementariedade de gênero e o papel das mulheres morroquianas para manutenção da agrobiodiversidade em uma porção do cerrado brasileiro. In: SCOTT, P.; CORDEIRO, R.; MENEZES, M (orgs.). Gênero e geração em contextos rurais. Ilha de Santa Catarina: Ed. Mulheres,2010. p. 209-232 5Citação retirada deste texto/ 6Citação retirada deste texto/ 7Citação retirada deste texto/ 8Citação retirada deste texto.

AGUIAR, M. V. A. Invisibilidade camponesa e desperdício de experiências: aprendizados a a partir da agroecologia. VIII Congreso Latinoamericano de Sociología Rural, Porto de Galinhas, 2010 1Citação retirada deste texto/ 2Citação retirada deste texto/ 3Citação retirada deste texto/ 4Citação retirada deste texto/ 9Citação retirada deste texto.

Notícia. Terra de Direitos. Carta dos Povos Indígenas e Quilombolas de Mato Grosso. (Acesse a notícia.).

Notícia. Fase. Sociedade civil se manifesta sobre ZSEE no Mato Grosso. (Acesse a notícia.).

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