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Geraizeiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 14h58 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 15h53 | Acessos: 119

Histórico

Verifica-se na criação da identidade geraizeira um grande sincretismo, não só religioso, mas de traços culturais típicos do modo de colonização e transformação social pelo qual o Brasil passou nestes 500 anos. O modo de vida dos geraizeiros compôs-se a partir de influências indígenas, afrodescendentes e portuguesas. As comunidades geraizeiras foram fundadas no entorno das rotas dos gados, de comércio e do ouro que atravessava o país.

A maior parte das tribos indígenas que habitavam a região foram expulsas ou dizimadas até o século XVIII. Dos indígenas, há diversos elementos culturais e ligados à subsistência, entre eles a agricultura por meio da alternância entre espaços e cultivos e culturas, plantação de mandioca, milho, batata doce e amendoim, o tabaco, a pesca, a tecelagem e cestaria, o uso das plantas medicinais, costumes e ritos.

Os afrodescendentes legaram um conjunto de elementos de dança, religiosos, musicais, lingüísticos e alimentares como o inhame e a cana-de-açúcar. Já os portugueses (principalmente lavradores), além da língua, deixaram a arquitetura, o mobiliário, a religião, a importância da família no seio da comunidade e a arte, bem como costumes ligados à alimentação como o queijo, farinha e pimenta.

“Desenvolveram, historicamente, diferentes estratégias produtivas para garantirem a sua sobrevivência. E entre estas estratégias, a mais evidente é a associação da diversidade de cultivos (milho, feijão, mandioca, cana, amendoim etc.) com a diversidade de variedades (genética) desenvolvidas e adaptadas para uma diversidade de agroambientes, reconhecidos em função da fertilidade, profundidade, textura dos solos, posição no relevo, proximidade do lençol freático etc. Mais ainda, é no aproveitamento da biodiversidade presente na vegetação nativa que vão buscar o complemento mais seguro para a sua subsistência, uma vez que as adversidades climáticas afetam, com frequência, os seus cultivos anuais. Além do fornecimento de forragem para o gado, coletam da flora nativa uma diversidade de frutos para alimentação humana e animal, para produção de óleos e sabões, plantas medicinais, madeiras para lenha, construções e cercas, e fibras para confecção de chapéus, esteiras e vassouras. Menos intensivamente (...) também são aproveitadas a caça animal”.3

O modo de vida das comunidades geraizeiras era ligado à vida nas fazendas dos campos gerais do norte de Minas Gerais. Havia o fazendeiro com a posse sobre grandes extensões de terra e que ocupava com suas casas e criações os melhores lugares (próximos a cursos d’água, principalmente) e os posseiros, arrendatários e meeiros, que ocupavam pedaços de terra menos interessantes para o fazendeiro, criando animais geralmente soltos. Como compromisso, os arrendatários e posseiros realizavam trabalhos diversos e davam parte da sua produção para o fazendeiro. Além da criação de animais soltos, parte dos campos não era cercada e era permitida a coleta de plantas medicinais, frutos, oleaginosas, sementes e madeira. Na década de 30/40, houve o início do processo de medição e cercamento das terras, o que não impediu a criação de gado à solta.

Esse modo de vida tradicional e pautado no modelo colonial, subsistiu com poucas mudanças até as décadas de 60 e 70, quando o governo militar provocou grandes mudanças na região e afetou muito a vida das populações do Norte de Minas, a partir da destruição da vegetação nativa, cercamento de campos comuns onde povos inteiros viviam há gerações, intensa criação de gado e monoculturas via irrigação. Além disso, incentivou a plantação de pinus e eucalipto para atender às indústrias de carvão e de papel/celulose. O contexto político da época incentivou os programas de aceleração do crescimento, negando a existência e os direitos dessas populações ao dar as concessões de terras a preços irrisórios e expulsando de forma violenta os povos tradicionais. As monoculturas irrigadas sem o menor critério acabaram por destruir e secar cursos d’água e rios, até então perenes, e o uso de agrotóxicos contaminou o solo, as águas e prejudicou a saúde da população da região.

“Os agroecossistemas tradicionais, extremamente diversificados, cederam lugar a uma agricultura homogênea e monótona, onde a utilização de maquinaria pesada, adubos químicos e agrotóxicos vem aumentando a erosão dos solos e a poluição por produtos altamente tóxicos, dos parcos recursos hídricos e ameaçando tanto a vida humana quanto a fauna nativa ainda existente. Pastagens e reflorestamentos homogêneos dominam, hoje, a paisagem dos cerrados, ao lado de capoeiras degradadas e grandes manchas de áreas indicativas de pré-desertos.”4

Dessa forma, até a década de 90, mais de 50% da cobertura nativa da região foi extinta e os geraizeiros foram de tal modo afetados que muitos precisam hoje comprar gêneros alimentícios que antes produziam tanto para subsistência quanto para venda, como a farinha de mandioca, arroz etc.

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