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Geraizeiros

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 14h58 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h47 | Acessos: 49

Características

Localização/Bioma: Campos gerais do norte do estado de Minas Gerais, no bioma do Cerrado. Faz divisa com a caatinga e com os estados da Bahia e Goiás, à margem direita do Rio São Francisco.

A identidade dessa população tradicional está vinculada à formação dos “gerais”, que são os planaltos, encostas e vales das regiões de cerrado no norte de Minas e Sul da Bahia. As comunidades geraizeiras se organizam em torno da prática da pecuária (com criação de gado e porco soltos até recentemente), do cultivo diversificado de plantas e da extração de frutos e madeira do Cerrado. Todos esses itens servem ao consumo próprio e à comercialização do excedente em feiras e mercados de cidades da região.

Os ambientes que permeiam a vida dos geraizeiros são formados por encostas, planaltos e vales ou várzeas de rios, sendo cada tipo de paisagem utilizada de uma forma. As chapadas possuíam acesso livre para extrativismo e criação de animais até a década de 70, quando foram apropriadas pelas empresas de reflorestamento de pinus e eucalipto. Os tabuleiros (áreas de transição entre chapadas e várzeas) permitem cultivos diversos de mandioca, feijão, arroz, cana e outras culturas, sendo também os locais de moradia. As vazantes ou várzeas são terrenos mais úmidos, baixos e alagáveis, próximos aos rios, onde eram plantadas outras culturas mais próprias a este solo, como o arroz. As terras eram cultivadas por até três anos, em um sistema rotativo visando à recuperação do solo. A partir da diversificação total da produção e dos meios, os geraizeiros contribuem para a preservação do bioma no qual estão inseridos.

A água possui papel determinante nessa região, sendo foco de conflitos entre as comunidades tradicionais e a agricultura empresarial pautada no discurso desenvolvimentista, que desvia cursos de rios, esgota nascentes com a prática predatória da irrigação de grandes monoculturas e contamina os rios e córregos com agrotóxicos. Muitos geraizeiros precisaram cavar poços artesianos, comprar bombas d’água ou andar quilômetros com latas de água para achar córregos, a fim de suprir suas necessidades em períodos críticos, mas é importante ressaltar que essas práticas não são típicas dos mesmos, constituindo-se um desrespeito às suas tradições e modos de vida. Para eles, a água é uma providência divina e um bem comum, que não deveria estar suscetível ao domínio privado de alguns.

“A chuva é divina. Olha só como ficam as árvores na seca. Fica debaixo de uma só pra você sentir as lágrimas. Elas choram. Quando a chuva vem os pássaros cantam, molha a terra e a natureza toda fica feliz. A gente aqui, vive é da terra. A chuva deixa ela macia, a gente planta nela e vive.” (J. S. M., Comunidade de Lagoa do Barro) 5

O processo de modernização acelerada verificada no Norte de Minas afetou, em maior ou menor escala, os pilares de sustentação da agricultura familiar regional, entre eles, a diversidade de culturas e uma restrição no acesso à coleta (de frutos como pequi, panam, araçá, coco buriti e outras plantas e sementes medicinais, forrageiras e alimentares) tanto pelo cercamento das propriedades quanto pelo desmatamento indiscriminado dos remanescentes florestais e sua substituição por pastagens ou monoculturas de eucalipto.

O pretenso desenvolvimento excluiu os grupos tradicionais, priorizando os grandes latifundiários e as empresas de replantio e exploração de madeira para siderúrgicas e papel. A desterritorialização destes povos levou-os a perder algumas bases e pressupostos que os identificavam como tal, levando-os até certo ponto a uma homogeneização e aculturação. Hoje, por exemplo, muitos descendentes migraram para as cidades.

Em contraponto, os geraizeiros estão começando a se organizar nos últimos anos em movimentos e associações para defender seus direitos ligados ao acesso e uso da terra, da água e à preservação de sua cultura, em muitos casos em conjunto com a Via Campesina, dentro da lógica de luta pela reforma agrária e em defesa do pequeno camponês brasileiro.

“Por que eu tenho que pedir licença pra alguém pra tirar água do rio? O rio não tem dono! Agora, onde está o dono da água? Só faltava alguém querer ser o dono da água! Nem eu, nem você, nem governo; ninguém pode ser dono disso! A água está aí para gente sobreviver, produzir alimento.”(Sr. C. M. Comunidade de Lagoa da Tiririca) 6

 

Referências

AFONSO, P. C. S.; JÚNIOR, J. C. Os geraizeiros ea gestão das águas: considerações sobre as comunidades do vale do Riachão, Montes Claros/MG. V Encontro de Grupos de Pesquisa. Universidade Federal de Santa Maria, nov. 2009. 15 p. 5Citação retirada deste texto/ 6Citação retirada deste texto.

BRITO, I. C. B. Ecologismo dos Gerais: conflitos socioambientais e comunidades tradicionais no Norte de Minas Gerais. 2013. 269 f., il. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Sustentável)—Universidade de Brasília, Brasília, 2013.

BRITO, I. C. B. A rede-movimento social dos Geraizeiros do Norte de Minas. VI Encontro Nacional da Anppas. Belém, set. 2012.

CORREIA, J. R. et al. Um olhar sobre a relação “geraizeiros” e pesquisadores formais na busca de alternativas de uso sustentável dos recursos naturais do Norte do Estado de Minas Gerais, Brasil. Ateliê Geográfico, [S.L.], v. 5, n. 2, ago. 2011. ISSN 1982-1956.

DAYRELL, C. A. Geraizeiros e biodiversidade no Norte de Minas: a contribuição da agroecologia e da etnoecologia nos estudos dos agroecossistemas tradicionais. Dissertação. Universidade Internacional de Andalucia, 1998. 182 p. 1Citação retirada deste texto/ 2Citação retirada deste texto/ 3Citação retirada deste texto/ 4Citação retirada deste texto.

LIMA, I. L. P.; SCARIOT, A.; MEDEIROS, M. B.  and  SEVILHA, A. C. Diversidade e uso de plantas do Cerrado em comunidade de Geraizeiros no norte do Estado de Minas Gerais, Brasil. Acta Bot. Bras. [online]. 2012, vol.26, n.3, pp. 675-684. ISSN 0102-3306.

MACEDO, M. M. Escola Rural Geraizeira: os Geraizeiros da Tapera e sua luta por uma educação do campo no norte de Minas. Anais do III Seminário de Educação Brasileira. Centro de Estudos Educação e Sociedade, Campinas, ano I, fev./mar. 2011. p. 777-797

MARCATTI, B. A. et al. A resistência geraizeira: uma história de enfrentamento ao projeto das empresas de reflorestamento. [s. d.], [s. l.]. 5 p.

NOGUEIRA, M. C. R.. Gerais a dentro e a fora: identidade e territorialidade entre Geraizeiros do Norte de Minas Gerais. 2009. 233 f. Tese (Doutorado em Antropologia)-Universidade de Brasília, Brasília, 2009

OLIVEIRA, R. M. O desenvolvimento da agricultura no Brasil e seus rebatimentos  sobre bioma cerrado e o uso comunal dos Gerais pelos Geraizeiros. XXI Encontro Nacional de Geografia Agrária. Uberlândia, out. 2012. 12 p.

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