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Fundo e Fecho de Pasto

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 14h48 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h45 | Acessos: 39

Características

Localização/Bioma: Caatinga, sertão da Bahia.

Durante muito tempo, a criação dos animais nas comunidades de fundo e fecho de pasto era totalmente pautada no uso das terras comuns, sem necessidade de impor limites físicos ao espaço. Além disso, sempre houve trocas constantes de produtos e serviços com as comunidades e cidades próximas. Na época de formação das comunidades, as pessoas foram ocupando as terras abandonadas sem preocupação com a regularização da propriedade, e cada família ocupava uma parte do território de acordo com a necessidade do uso que daria a ele.

A posse nesse caso não possui um caráter privado, pois as terras de um produtor podem ser usadas por outros produtores. O uso das terras é comunal e mesmo em uma área dita como privada, não se pode negar o acesso dos outros à água e pasto, por exemplo.

“Diante das adversidades, foram gestando o seu modo de vida, pautado na convivência com a caatinga e o cerrado, de forma que a sua experiência de apropriação do bem natural não tivesse um caráter de transformação total da natureza a ponto de criar um desequilíbrio. O meio natural que era modificado, possuía uma relativa harmonia com o grupo social que o modificava. A convivência construída com base no que a própria caatinga possuía não se constituía enquanto ação predatória. Nesta relação, a seca passou a ser entendida não como catástrofe, mas como ciclo natural. Isso não quer dizer que não sofriam com a seca, significa dizer que encontraram um caminho de convivência e criavam estratégias, dentre as quais a migração.” 3

As dificuldades impostas pela seca levaram os pequenos criadores de gado a investirem na criação de caprinos, ovinos e suínos à solta, pois são animais menores, necessitam de menos água e atingem a maturidade mais cedo, além de ser uma atividade mais viável do que a agricultura, dificultada pelo clima e pelo solo da região. Além da pecuária, as comunidades desenvolvem de forma coletiva o beneficiamento de frutas da caatinga como o umbu, o maracujá, manga e goiaba.

“Por força de sua localização na caatinga, as comunidades de fundos de pastos desenvolveram ‘como alternativa de produção e reprodução, a caprinocultura extensiva’, em áreas comuns para pastagem. Nos últimos vinte anos vêm se dedicando ao beneficiamento de frutas da caatinga, especialmente o umbu e maracujá, a partir de um trabalho cooperativo.” 4

As comunidades possuem um histórico de formação de lideranças comunitárias e trabalho coletivo iniciado na década de 80 e que se mantém até hoje. Um ponto marcante na história das comunidades de fundo e fecho de pasto da Bahia foi a criação, em 2004, da cooperativa de beneficiamento das frutas da caatinga, por conta do sucesso dessa atividade econômica recente exercida principalmente pelas mulheres. A Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uará e Curaçá foi um dos exemplos de formação de associações comunitárias que reforçaram os laços e o poder econômico das famílias ligadas a elas, além de reforçar a emancipação feminina dentro das comunidades.

Além disso, a coleta destas frutas levou as comunidades a se organizarem para não apenas coletar e beneficiar os produtos, mas também para preservar as árvores e plantá-las. Parcerias foram firmadas para plantio de mais árvores de umbu e maracujá nas cercanias das comunidades, a fim de preservar o bioma e reforçar a produtividade dessa atividade econômica.

“De modo qualificado, homens e mulheres do semiárido estão reinventando a vida na caatinga, somando à caprino-ovinocultura, a coleta e beneficiamento de frutas que antes eram simplesmente comercializadas por preços irrisórios e sem quaisquer cuidados com as plantas geradoras da riqueza da região. Tais atividades, além de proporcionarem um aumento de renda familiar, são praticadas com profundo respeito ao meio ambiente, preservando e renovando as espécies nativas.”5

Esses esforços de conservação e valorização do meio ambiente culminaram na criação da Escola Família Agrícola do Sertão, em Monte Santo. Essa escola foi possível depois de diversos conflitos com posseiros e jagunços e conta com um regime de alternância em que os alunos ficam 15 dias na escola e 15 na comunidade, aplicando os conhecimentos adquiridos no seu próprio território, acompanhados pelos professores. Muitas mulheres participam dessa escola, que conta com ensino básico regular e cursos técnicos voltados à realidade e às necessidades das comunidades.

Dentre as principais ameaças sofridas por este povo, estão: os projetos de irrigação e desenvolvimento do sertão que levaram a especulação do capital sobre as terras comunais, seriamente ameaçadas há algumas décadas (estas ameaças resultaram, na década de 80, na criação de uma comissão para mapear e fazer a regularização fundiária das terras pertencentes aos fundos e fechos de pasto); a criação de rodovias federais na região que intensificou o fluxo de pessoas e empresas e dividiu comunidades ao meio;o alargamento das fronteiras agrícolas dos grandes latifundiários da soja, que tomou parte das terras comunais. Essas questões levaram as comunidades de fundo de pasta a se organizarem e buscarem na autodeterminação e na luta agrária uma forma de preservarem sua cultura, seus modos de vida e seus territórios. As lideranças comunitárias, as associações e os encontros recentes têm reforçado esta luta.

 

Referências

ALCÂNTARA, D. M; GERMANI, G. I. Fundo de Pasto: um conceito em movimento. UFBA [s. d.]. 15 p. 1Citação retirada deste texto.

ALCÂNTARA, D. M; GERMANI, G. I. As comunidades de fundo de fundo e fecho de pasto na Bahia: luta na terra e suas espacializações. Revista de Geografia. Recife: UFPE - DCG/NAPA, v. 27, n. 1, jan/abr. 2010. p. 40-56. 2Citação retirada deste texto/ 3Citação retirada deste texto.

CAMAROTE, Elisa M. Territorialização e parentesco em uma comunidade baiana de fundo de pasto. RURIS-Revista do Centro de Estudos Rurais. UNICAMP, v. 5, n. 1, 2011.

DIAS. S. C. S. Trajetória dos fundos de pasto na Bahia. Anais Eletrônicos – VI Encontro Estadual de História. ANPUH/BA, 2013. [8. p.]

FERRARO JÚNIOR, L. A. Entre a invenção da tradição e a imaginação da sociedade sustentável: estudo de caso dos fundos de pasto na Bahia. 2008. 484 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Sustentável - Política e Gestão Ambiental) - Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília, Brasília. 2008.

NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL. Fundos de Pasto: Nosso jeito de viver no Sertão: Lago do Sobradinho, Bahia.Projeto NovaCartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil. Brasília, 2007. 11 p. (Fundos de Pasto, 2)

NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL. Fundos de Pasto: Nosso jeito de viver no Sertão: Oliveira dos Brejinhos e Brotas de Macaúbas. Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil. Manaus : UEA Edições, 2012. 12 p. (Povos e Comunidades Tradicionais do Nordeste, 1)

NUNES, M. A. C.; TREVIZAN, S. D. P. Modo de vida de Comunidades de Fundo de Pasto e sua relação com componentes naturais de caatinga no município de Sobradinho, BA. Revista Visões Transdisciplinares sobre Ambiente e Sociedade. Ano III, n. 7, ago. 2013.

SANTOS, Cirlene Jeane Santos. Fundo de pasto: tecitura da resistência, rupturas e permanências no tempo-espaço desse modo de vida camponês. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2010. 274 p.

SOUZA, M. J. A.; ARAÚJO, C. S; SILVA, M. C. As comunidades tradicionais de fundo de pasto no campo jurídico e político: um estudo sobre a viabilidade da formação em educação jurídica popular para as disputas de estado. [s. d.]. p. 1463-1466.

TORRES. P. R. Comunidades de fundos de pasto: desenvolvimento, conservação ambiental e território. Trabalho apresentado no 5º Encontro da Rede de Estudos Rurais, jun. 2012. 15 p. 4Citação retirada deste texto / 5Citação retirada deste texto.

TORRES, P. R.; ALENCAR, C. M. M. A insegurança das comunidades de fundos de pasto na contemporaneidade. Trabalho apresentado no 4º Encontro da Rede de Estudos Rurais (Mundo Rural, Políticas Públicas, Instituições e Atores em Reconhecimento Político). Curitiba, UFPR: jul. 2012. 11 p.

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