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Faxinalenses

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 14h37 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h45 | Acessos: 142

Características

Localização/Bioma: Região centro-sul do estado do Paraná; Região de Floresta de Araucárias.

Os faxinais são uma paisagem específica do sul do país, constituindo-se de campos e gramados cercados por florestas de araucárias. Além disso, também designa a forma de vida das comunidades que se constituíram nestes territórios. Estas comunidades caracterizam-se pelo uso comum de terras para plantio e criação de animais em espaços cercados. Dentro destes cercados, criam animais e plantam diversas culturas, que são a base do sustento familiar e comunitário. Segundo estudos, em 2008 existia cerca de 50 comunidades em 16 municípios no centro-sul do Estado em um total de cerca de 3.400 famílias (SAHR, 2008). Estas estimativas podem estar subestimadas.

“A área de criação (...) é um cercado composto por matas e pastagens em que se localizam as habitações dos faxinalenses. Na parte interior a esse espaço comum, que pode pertencer a um proprietário não morador do faxinal, ou a vários proprietários/moradores, são criados animais de várias espécies, tais como bovinos, eqüinos, caprinos, ovinos e suínos, além de vários tipos de aves domésticas. Os animais são de propriedade particular dos faxinalenses, sendo o número que cada morador pode criar naquele espaço, definido pelo grupo. As casas são dispostas no interior da área cercada, sendo boa parte delas protegidas por um cercado menor, ao entorno dos quais as criações circulam livremente. As terras de plantar localizam-se fora do cercado e podem pertencer ao proprietário que as cultiva, ou serem arrendadas.” 5

Os faxinalenses guardam muitos saberes tradicionais, vários deles ligados à medicina natural. Esta medicina tradicional é um misto dos saberes indígenas e de escravos que os traziam de seus antepassados, com remédios tirados da natureza, rezas e cantos. Além do uso das ervas medicinais próprias da região, há a figura dos benzedeiros ou curandeiros, que compreendem o exercício da cura como sendo uma vocação e missão divinas oferecidas a alguns escolhidos. Essas pessoas detêm grande prestígio na comunidade, praticando a cura para pessoas e animais. O exercício da cura interliga as plantas com a manifestação da religiosidade.

A monocultura e o desmatamento estão destruindo as ervas usadas nas curas, sendo estas cada vez mais difíceis de se encontrar nos faxinais. Além disso, o uso extensivo de agrotóxicos contamina as plantas e inviabiliza seu uso como remédio.

Os faxinalenses possuem uma religiosidade muito ligada ao Catolicismo, mas com certo grau de sincretismo religioso e construção de práticas próprias, não ligadas às práticas eclesiásticas e ritos da Igreja Católica. Isso porque durante séculos e até recentemente, a presença de representantes da Igreja era esparsa na região. Isso levou-os a criarem festas com teor religioso que não necessariamente correspondem ao calendário oficial católico.  Além da já citada figura do benzedeiro, criaram a figura do capelão, que cumpre às vezes de sacerdote local coordenando as rezas, festas santas e os ritos funerais. Ambos, benzedeiro e capelão, não reconhecidos pela Igreja Católica oficial e, portanto, são considerados leigos. Algumas destas figuras leigas foram e ainda são muito expressivas na cultura faxinalense, como o Monge José Maria.

As festas e manifestações religiosas são importantes para os faxinalenses. Antigamente, cada família adotava um santo padroeiro, com a obrigação de realizar uma comemoração anual em sua homenagem. Essas festas eram freqüentes no século XVIII, XIX e ainda no século XX. Procissões e novenas também eram comuns. As casas contavam com altares e imagens desses santos, além do Divino Espírito Santo, que é o mais cultuado até hoje.

“A devoção as santos nos faxinais, como já apontamos, relaciona-se à cura das doenças, ao alívio das dores, ao enfrentamento das dificuldades, à proteção diante dos perigos, ao controle das forças do infortúnio e à falta de assistência por parte das instâncias políticas e religiosas. A historiografia relativa ao assunto nos permite pressupor que a iniciativa popular, frente à ausência da hierarquia, resultou na produção de um catolicismo mestiço e considerado popular.” 6

A busca pelo reconhecimento, proteção e garantia de continuidade do seu modo de vida característico levou os faxinalenses a se unirem e se organizarem, tanto dentro das comunidades como em encontros e participando de redes com outros povos e comunidades tradicionais. Os faxinalenses são reconhecidos como tais pelo Decreto de 13 de Julho de 2006, que altera a denominação, competência e composição da Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável das Comunidades Tradicionais - CNPCT e pela Lei Estadual 15.673/2007, que declara o reconhecimento dos Faxinais e de sua territorialidade específica pelo Estado Paranaense.

Os faxinalenses enfrentam conflitos pela garantia de continuidade de seus territórios e modo de produção, que tem sido cada vez mais destruídos e expropriados para dar lugar a monoculturas ou plantações de árvores para posterior corte. Esse processo se intensificou na década de 1960 e 70, com o incentivo governamental a políticas de desenvolvimento agrário que beneficiavam o agronegócio, as monoculturas e plantação de eucalipto e pinus. Nesse processo, grandes latifundiários tomaram posse das terras comunais e não cercadas dos faxinais, comprometendo o acesso dos faxinalenses a recursos importantes para a sobrevivência e produção, além de ameaçar seu modo de vida.

Para se protegerem, fortalecerem os laços de sua autodeterminação e buscarem a garantia de manutenção e proteção de seus territórios, os faxinalenses têm se mobilizado nos últimos anos em encontros e associações, além de cobrar do governo a execução das leis e decretos que garantem a proteção aos povos e comunidades tradicionais. Eles são reconhecidos como tais pelo Decreto Federal 10.408/2006 - Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Comunidades Tradicionais e pela Lei Estadual 15.673/200 Nesse sentido, em maio de 2008, surgiu a Rede Puxirão  no seio da luta de vários povos e comunidades tradicionais do sul do país pelo direito de autodeterminação. Sua principal atuação é no âmbito da política regional, com inserção também no campo político federal e em parceria com a Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais – CNPCT. 

Referências

ALMEIDA. A. W. B. et al. (org). Terras de Faxinais. Manaus: Edições da Universidade do Estado do Amazonas - UEA, 2009. 184 p.: il. (Coleção "Tradição & Ordenamento Jurídico", 4)

ANTUNES, J.; SOCHODOLAK, H. O Faxinal e a narrativa trágica. Revista Tempo, Espaço e Linguagem, v.1, n.1, jan./jul. 2010. p.133-143

ASSOCIAÇÃO Aprendizes da Sabedoria de Medicinais e Agroecologia. Faxinalenses: fé, conhecimentos tradicionais e práticas de cura. Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil. Iraty/PR, 2008. 15 p. (Faxinalenses do Sul do Brasil, 1)

BARRETO, M. Sistema Faxinal: uma forma de organização camponesa em desagregação no Centro-sul do Paraná. Terr@Plural, Ponta Grossa, v.5, n.2, jul./dez. 2011. p.249-253.

BENATTE, A. P.; CAMPIGOTO, J. A.; CARVALHO, R.. Os santos nos faxinais: religiosidade e povos tradicionais. Topoi, v. 12, n. 23, p., jul./dez. 2011. p. 140-160. 6 Citação retirada deste texto.

BENATTE, A.; CAMPIGOTO, J.; NASCIMENTO, J. Povos faxinalenses: saúde e conhecimentos tradicionais.Diálogos (Maringá. Online), v. 17, n.1, p. 41-68, jan./abr.2013. 3 Citação retirada deste texto/ 4 Citação retirada deste texto/ 5 Citação retirada deste texto.

BERTUSSI, M. L. Faxinais: em busca do reconhecimento. Trabalho apresentado na 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia. Porto Seguro, 01 e 04 de junho. 10 p. 1Citação retirada deste texto.

BEZERRA, I.; FURTADO, A. C. A natureza dos (e nos) faxinais: práticas de produção agroecológicas e consumo de alimentos saudáveis. Cadernos de Agroecologia, v. 8, n. 2, nov. 2013. 5 p.

MENI, E. Faxinal do Salso: embate dos faxinalenses com chacareiros eo poder público local acerca da territorialidade, meio ambiente, identidade étnica, sustentabilidade e saúde. Trabalho apresentado no 5º Encontro da Rede de Estudos Rurais, jun. 2012. 15 p.

MONTEIRO, Rodrigo Rocha. O turismo em comunidades tradicionais faxinalenses: uma discussão sobre as transformações recentes no campo brasileiro e seus reflexos para as comunidades tradicionais. Revista Pegada. v. 14 n.2. dez. 2013. 177-193.

ROCHA, E. P.; MARTINS, R. S. Terra e Território Faxinalense no Paraná: notas sobre a busca de reconhecimento. Campos, v. 8, n. 1, p. 209-212, 2007

SAHR, C. L. L. Os “mundos faxinalenses” da floresta com araucária do Paraná: racionalidades duais em comunidades tradicionais. Terr@Plural, Ponta Grossa, 2 (2): 213-226 , jul./dez., 2008

TOLEDO, I. A.; CAMPIGOTO, J. A. A cultura no sistema faxinal: comunidade de Marmeleiro de Baixo, Rebouças/PR. Revista Tempo, Espaço e Linguagem, v.1, n.3, set./dez. 2010, p.71-91. 2 Citação retirada deste texto.

Notícia. Gazeta do Povo. Faxinais em risco de extinção. (Acesse a notícia.).

Sítio web. Terra de Direitos: Organização de Direitos Humanos. Carta do III Encontro dos Povos Faxinalenses (Acesse o site.).

Notícia. Globo Rural. Set. 2010 (Acesse a notícia.).

Sítio Web Ocareté (Acesse o site.).acessado em 27/10/2014.

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