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Cipozeiros

Publicado: Quarta, 06 de Julho de 2016, 16h41 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h34 | Acessos: 64

Características

Localização/Bioma: divisa do Paraná com Santa Catarina, com incidência de Mata Atlântica nativa e no norte do Estado de SP.

Os cipozeiros tradicionais possuem uma cultura caracterizada por vários conhecimentos tradicionais, como a coleta e artesanato do cipó, a roça, a pesca e a tecelagem em diferentes fibras naturais. O artesanato com o cipó é uma técnica passada de pais para filhos há centenas de anos. A extração é feita geralmente pelos homens, enquanto o artesanato é executado majoritariamente pelas mulheres com o auxílio dos jovens.

A espécie de cipó extraída mais comumente é a do cipó imbé, que serve para a produção de artesanato de cestas, balaios, chapéus, luminárias e diversos outros artigos decorativos e de uso doméstico.

Entre os princípios dos cipozeiros (as) tradicionais há menções correntes ao “respeitar a natureza”, que inclui manejar o cipó corretamente - respeitando a renovabilidade das raízes, não matando a “planta mãe”, permitindo a recuperação natural das áreas manejadas - com técnicas adequadas de seleção, corte e escolhas dos espaços geográficos de manejo. Em outras palavras, estar na natureza é um princípio de produção e reprodução de sua cultura. 4

A extração e beneficiamento do cipó imbé demanda grande carga de trabalho, principalmente devido à escassez do material, decorrente do desmatamento, sendo necessário caminhar grandes distâncias para encontrar e extrair o cipó. Além disso, como o produto do beneficiamento (o artesanato) possui baixo valor agregado, é necessário coletar muito cipó para que a atividade se torne rentável. Outro fator determinante da carga de trabalho é o fato de o cipó beneficiado corresponder a apenas 10% do total coletado, sendo os outros 90% casca e fibras.

“O trabalho com cipó imbé envolve vários membros da família: homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e idosos. As raízes são retiradas da “mãezera” por corte com faca, ou por torção do fio (“coxado”), “...não pode cortar a mãezera, senão acaba o cipó”. São retiradas apenas raízes maduras, deixando outras mais jovens, “pra não deixar a mãezera sem água”. A escolha da área para nova retirada segue aproximadamente um esquema de “pousio”. Depois o cipó é descascado, raspado, seco, partido, perfilado e então trançado.” 5

Levando em conta os ganhos baixos decorrentes da extração e beneficiamento de cipó, as famílias cipozeiras precisam encontrar outras atividades econômicas para complementação de renda, sendo algumas tradicionais e outras não. Essas atividades são o plantio da roça de mandioca e outras espécies, a pesca, a coleta de caranguejo, a produção de mudas de palmeira real e eucalipto, a prestação de serviços como servente de pedreiro, chapeiro, ajudante de cozinha, servente de escola, comerciante, venda em bancas na estrada, aposentado, artesanato de vime e chacreiro.

A cadeia comercial do cipó é designada pelo cipozeiro, que extrai o cipó da mata e o beneficia ou não (o beneficiamento pode ser pela limpeza, retirada da casca e embranquecimento do cipó e pela criação de artesanato); o cipó ou o produto beneficiado é vendido para lojistas locais, consumidor final ou atravessadores que os levam a outros mercados como CEASA, CEAGESP e mercados de produtos decorativos e floriculturas do Sul e Sudeste. Há também a possibilidade de o produtor vender os produtos diretamente a esses mercados, sem a necessidade de um atravessador.

Os cipozeiros precisam hoje de permissão para entrar nas áreas de coleta, pois todas são áreas privadas. Em alguns casos o acesso à terra é permitido; em outros, cobra-se parte da produção para entrar ou o acesso é negado. A recusa no acesso se dá principalmente por conta da desconfiança dos donos das terras quanto à retirada ilegal de palmitos. Em alguns casos, essas desconfianças levam a conflitos armados.

Os cipós estão acabando por conta da destruição da mata atlântica nativa para abrir terreno para pastagens e plantio de pinheiro, eucalipto, arroz, etc. e de pessoas que não detêm o conhecimento tradicional de manejo executando as extrações sem técnica e critério, realizando uma coleta predatória que mata a “mãezera” (de onde brotam novos cipós) e colhendo cipós verdes. Por conta disso, os cipozeiros têm se organizado em associações e movimentos, como o Movimento Interestadual de Cipozeiros e Cipozeiras. Suas reivindicações vão no sentido da garantia do acesso aos territórios tradicionalmente utilizados por eles; direito de extração do cipó e outros materiais associados ao conhecimento tradicional; melhoria de renda; autodeterminação por meio dos saberes e técnicas tradicionais. Se organizam em resposta ao avanço da propriedade privada sobre as terras e desmatamento causado pela produção agrícola extensiva, e, ainda, pela lógica de comercialização exploratória causada pelos atravessadores sobre o resultado do seu trabalho coletivo.

  

Referências

COMUNIDADE DE ARTESÃOS DO CIPÓ IMBÉ DE GARUVA. Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil: Cipozeiros de Garuva: floresta atlântica, Santa Catarina. Florianópolis: 2007. 11 p. 1Citação retirada deste texto/ 2Citação retirada deste texto/ 3Citação retirada deste texto.

ANTUNES, Douglas Ladik. Cipozeiros em Movimento: cultura material, conflitos territoriais e relações educativas em design. Rio de Janeiro, 2011. 226p. Tese de Doutorado - Departamento de Artes e Design, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

OLIVEIRA, M. E. A. et al. Outra cartografia é possível: construção da identidade de Povos e Comunidades Tradicionais através da Cartografia Social. 4º Encontro da Rede de Estudos Rurais. Curitiba , UFPR: jul. de 2010 4Citação retirada deste texto.

VIEIRA, P. M. Análise do processo extrativista do cipó-imbé (Philodendron corcovadense Kunth - ARACEAE) em Garuva-SC. Florianopólis. 2011. 72 p. TCC (graduação), Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Agrárias, Curso de Agronomia.

GRZEBIELUKA. D. Por uma tipologia das comunidades tradicionais brasileiras. Revista Geografar. Curitiba, v.7, n.1, p. 116-137, jun. 2012.

Site Rede Puxirão: (Acesse o site.).

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