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Castanheiras

Publicado: Quarta, 06 de Julho de 2016, 16h12 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h31 | Acessos: 269

Características

Localização: várias extensões da Floresta Amazônica, ao longo dos Estados do Amazonas, Pará, Tocantins, Acre, Amapá, Mato Grosso e Maranhão.

"A castanheira (Bertholletia excelsa) se desenvolve em climas equatoriais-úmidos e é encontrada esparsamente nas terras firmes de toda bacia amazônica. Caracteriza-se por concentrar-se espacialmente, formando castanhais e facilitando a coleta de seus frutos. Fruto este que no interior de sua casca dura (ouriço) guarda uma das mais cobiçadas especiarias amazônicas, a castanha-do-pará, consumida principalmente no exterior. Existem três tipos de castanha-do-pará no mercado: a grande, a média e a miúda. A castanha grande é sobretudo encontrada no rio Trombetas e Cachorro, a média na região do Tocantins e em Marabá e a miúda encontra-se em Alenquer e no Acre.” 3

As comunidades que vivem da extração de castanha são, em sua maioria, remanescentes de quilombos, muito distantes umas das outras e dos centros urbanos da Amazônia. Neste caso, o isolamento é mantido de forma consciente, numa reafirmação da diferença e da necessidade de autopreservação. O transporte se dá principalmente por barcos e rabetas (canoas com motor), sendo o rio o principal meio de transporte destas comunidades.

Devido à falta estrutural de escolas de primeiro e segundo grau nas regiões de mata fechada, é comum a prática de deixar as crianças morando com parentes da cidade, para que completem os estudos. É comum ocorrer visitas a parentes e comunidades próximas aos fins de semana, para compromissos sociais diversos (religiosos, de confraternização etc.). Para vencer as distâncias e dificuldade de comunicação, foram instalados rádios em algumas comunidades para comunicação mais rápida. Os castanheiros vão, regularmente, às cidades maiores para buscar benefícios sociais (bolsa família, aposentadoria), levar produtos feitos a partir do beneficiamento da castanha para venda e para visitar parentes.

A organização social das comunidades baseia-se, principalmente, na família, na divisão sexual do trabalho e na noção de reciprocidade. Mesmo morando longe, os familiares guardam entre si respeito e apoio mútuo, assim como um grande senso de comunidade com os vizinhos, com o uso de terras comunais, divisão da roça e da caça. Há uma forte divisão sexual do trabalho baseada na noção de família nuclear com agregação de parentes e pautada no sistema patrilinear, no qual a mulher muda-se para a comunidade do marido após o casamento e fica responsável pela casa, preparo e divisão da comida, educação dos filhos e saúde da família. No caso da extração de castanha, os homens responsabilizam-se pela colheita e as mulheres pela secagem e beneficiamento para transformação em óleo.

Nas comunidades que conseguiram preservar o uso das terras comunais, a terra não tem dono, mas o roçado sim. Ele é de quem plantou e cuidou da terra. O plantio é principalmente de mandioca e outros itens para subsistência e trocas. Os castanheiros complementam a alimentação com a pequena lavoura, caça e a pesca, além do extrativismo. No período de coleta da castanha, algumas famílias mudam-se para dentro da floresta, a fim de aumentar a produtividade e retorno financeiro da extração. O sincretismo religioso é percebido nestas comunidades pela manifestação da religião católica em conjunto com a presença de benzedeiras.

A extração da castanha ocorre principalmente nos meses chuvosos. Como a castanheira é muito alta, os “ouriços” (cápsulas que guardam de 12 a 20 sementes) são coletados no chão, já caídos. As sementes são retiradas do ouriço e guardadas em sacas, que são vendidas por baixos valores ou beneficiadas. O beneficiamento contempla a secagem das sementes em estufas ou ao ar livre, descascamento manual ou por meio de prensas metálicas e, opcionalmente, a extração do óleo.

“No período de coleta de castanha, os membros se voltam quase que exclusivamente a essa atividade. A família migra para dentro ou próximo dos castanhais e as tarefas são divididas entre os membros. Geralmente os homens coletam e transportam as castanhas, enquanto que as mulheres e as crianças quebram os ouriços de castanha.” 4

Dentre vários problemas enfrentados pelos castanheiros, estão: a exploração e semiescravidão por meio da patronagem e aviamento; cercamento de espaços de extração para criação de unidades de conservação da natureza que se sobrepõem a territórios de extração de castanhas; a exploração de minérios nas terras das comunidades castanheiras, ocasionando grande dano ambiental e social; extração ilegal de madeira da castanheira, ocasionando queda na produtividade e dificuldade maior na extração.

Na década de 90 surge a figura das reservas extrativistas (RESEX), unidades de conservação da natureza que permitem o manejo e extração sustentável nas áreas sob proteção, com a garantia de conservação do ecossistema. Além disso há, tanto em nível federal como em alguns Estados como o Amapá, políticas públicas que visam o fortalecimento das cadeias produtivas de comunidades extrativistas com a criação de associações representativas, cooperativas de extração e beneficiamento e oferta de formações, contribuindo para a quebra do círculo vicioso do aviamento.

  

Referências

DINIZ, J. D. A.  et al.. O papel das incubadoras de empresas e cooperativas nas cadeias produtivas extrativistas: caso sul do Amapá. 16 p.

HADDAD, C. J.; BONELLI, M. F. Projeto Castanha-do-Brasil: Amapá. [s. l.]: Fundação Getúlio Vargas, 2006. (Projeto Conexão Local, II). 32 p.

HOMMA, Alfredo Kingo Oyama et al. A destruição de recursos naturais: o caso da castanha-do-pará no sudeste paraense. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2000. 74 p. ISSN 1517-2201 (Documentos, 32).

LINHARES, J. S. S. D. Castanheiros, remanescentes de quilombos, filhos do Erepecuru. [s. l.], [s. d.]. [21 p.] 1A referida citação se encontra neste texto.

NELSON, Drew; FUJIWARA, L. Projeto Castanha-do-Brasil. In: BARBOZA, H. B.; SPINK (orgs.) 20 experiências de gestão pública e cidadania 2001. São Paulo: Programa Gestão Pública e Cidadania, 2002. p. 39-52

OLIVEIRA, Fabiana Ikeda de. Certificação da castanha-do-brasil e o desenvolvimento sustentável: análise de programas de certificação e de sua aplicação em empreendimentos castanheiros amazônicos. 2011. 137 f., il. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável) Universidade de Brasília, Brasília, 2011

SALOMÃO, R. P. et al. Castanheira-do-brasil recuperando áreas degradadas e provendo alimento e renda para comunidades da Amazônia Setentrional. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Naturais, v.1, n.2, p.65-78, 2006.

SOUZA, J. S. A. et al. Extensão multidisciplinar em uma comunidade de castanheiros no estado do Amapá. IV Encontro Nacional da Anppas. Brasília  4,5 e 6 de jun. de 2008. 12 p. 4 A referida citação se encontra neste texto.

WANDERLEY, L. J. M. De escravos livres a castanheiros “presos”: a saga dos negros no Vale do Trombetas. Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em Caxambu, set./out. de 2008. 21 p. 2 A referida citação se encontra neste texto/ 3 A referida citação se encontra neste texto.

Notícia. Portal da Amazônia. Abr. 2014. Amapá investe em projeto para exportar castanha-do-brasil. (Acesse a notícia.).

Notícia. Ministério do Desenvolvimento Social. Castanheiros do Acre têm valor de produto regulado graças à ação do PAA na região. (Acesse a notícia.).

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