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Caatingueiros

Publicado: Sexta, 01 de Julho de 2016, 15h27 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h27 | Acessos: 765

Características

Localização: Caatinga norte-mineira, na junção dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás, região caracterizada pelo clima semiárido. Os caatingueiros encontram-se principalmente nas encostas da Serra Geral que circunda a região do Norte de Minas Gerais.

Os caatingueiros vivem principalmente no sopé da Serra do Espinhaço, conhecida como Serra Geral. Por conta de sua ascendência marcadamente europeia, atuam seguindo a lógica econômica de produção voltada ao comércio. São eminentemente camponeses cuja vida se baseia na produção agropecuária com grande diversidade de gêneros produzidos.

O comércio está em suas bases culturais e o caatingueiro cria e mantém relações comerciais com vários outros povos e comunidades ao redor, além de mercados maiores e mais distantes. Este fato levou-os a terem melhores condições de vida e mais acesso a crédito, assistências diversas e políticas públicas do que as demais comunidades da mesma região.

O modo de vida e produção caatingueira são diretamente ligados ao ecossistema da Caatinga. Por serem majoritariamente descendentes de imigrantes europeus, os caatingueiros conservam traços familiares e culturais dos povos aos quais têm ascendência. Trabalham diretamente com a terra, tanto com produção de diversas culturas quanto com a criação de gado leiteiro e de corte e produzindo derivados do leite. Na agricultura, destaca-se a produção de vários tipos grãos, verduras e frutas nativas e exógenas e plantas adaptadas à seca:

“Em termos de produção, a Caatinga é muito diversificada: feijão, milho, sorgo, algodão, verduras, frutíferas, mas o que predominou historicamente foi o algodão. De frutas nativas temos o umbu, a pitomba, jatobá, cagaita, jaca, dentre outras. O catingueiro vende verduras, hortaliças, mandioca, abóbora, batata, milho, feijão, derivados do leite; a Caatinga tem um grande potencial leiteiro (leite, queijo, requeijão, ricota, doce etc.); também a carne de gado, galinha, porco. Além de muitas frutíferas introduzidas, como o abacaxi, a acerola, a manga, a banana, dentre outras.” 2

Além disso, há a produção de algodão como monocultura em diversas propriedades, tendo sido o principal produto exportado durante décadas. Mesmo com a desvalorização sofrida pelo preço do algodão na década de 90, este ainda tem produção expressiva na região. Quando o algodão deixou de ser a principal fonte de faturamento local, a pecuária e a produção de leite o substituíram, bem como o retorno à produção mais diversificada.

Os caatingueiros enfrentam desafios cotidianos intrínsecos à vida na caatinga, ambiente com menor disponibilidade de água e com terra normalmente ácida que, por conta disso, facilmente desgasta seus nutrientes. Enfrentam também problemas relativos à expropriação ilegal de terras e problemas ligados ao cultivo de monoculturas, como variações bruscas de mercado que levam vários camponeses à falência.

“A Caatinga é assim: ela é um pouco rasteira, mas também é uma vegetação alta. Nessa época do ano [janeiro] ela está verde, daqui a pouco tempo começa amadurecer, cai tudo as folhas, fica parecendo mesmo Caatinga. Na época de agosto pra setembro, ih! Essa Caatinga aqui é braba, você não vê nenhuma folha. Quanto aos solos, tem região que é plana, tem região que é morrada; quando você pega uma região de serra mesmo, a vegetação diferencia um pouco. Os solos são férteis, é solo de produzir mesmo, de trabalhar mesmo... em algumas regiões você encontra muita pedra, cascalhada, em outras você dificilmente encontra pedra, é aquela terra mais maciça mesmo de cultivo (Adão Custódio, trabalhador rural de Porteirinha).” 3 

Os caatingueiros também enfrentam conflitos ligados ao acesso à água, desviada para uso prioritário do agronegócio. As obras de transposição de rios e bacias, quase sempre financiadas com verba pública e dentro de um amplo conjunto de políticas desenvolvimentistas pautadas principalmente no modelo econômico da época da ditadura (especialmente as políticas voltadas à questão da água no semiárido), têm alterado profundamente os territórios tradicionais e forçado muitos povos e comunidades a se adaptarem ou perderem sua identidade e meios de vida. Os conflitos geopolíticos decorrentes da luta pelo acesso à água e o avanço do agronegócio coloca os povos e comunidades tradicionais como os caatingueiros em uma injusta posição de entrave ao desenvolvimento econômico. Esta visão distorcida leva muitos destes povos e comunidades a terem negados seus direitos de autodefinição e manutenção dos modos de vida tradicionais.

 

Referências

COSTA FILHO, A. Gurutubanos, catingueiros e geraizeiros: identidades rurais, territorialização e protagonismo social. Trabalho apresentado na 26ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 a 04 de junho de 2008, em Porto Seguro, Bahia, Brasil 2Citação retirada deste texto / 3Citação retirada deste texto.

CUNHA, M. G. C. Territorialidades sertanejas: permanências e transformações no espaço rural norte-mineiro .[s. l.], [s. d.]. 19 p.

D’ANGELIS FILHO, J. S. Do local ao supra local: o caso dos catingueiros e geraizeiros da região de Porteirinha. In: Políticas locais para o “des-envolvimento” no Norte de Minas: uma análise das articulações local & supralocal. Universidade Católica de Temuco, 2005. p. 83-115

DOURADO, J. A. L. Agrohidronegócio e disputas territoriais no Semiárido Baiano: notas introdutórias.Revista GeoAmazônia, Belém, v. 2, n. 2, jul./dez. 2013. p. 122-133.

LOPES, Camilo Antônio Silva. Nos sopés da serras nortemineiras lutam os catingueiros. In: Os sertões nortemineiros: fronteiras e identidades politizadas que afirmam a diversidade sociocultural do Norte de Minas. Dissertação (mestrado), Universidade Estadual de Montes Claros, Unimontes, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social/PPGDS, 2010. p. 90-91 1Citação retirada deste texto.

Portal CAA: (Acesse o site CAA.).

SUÁREZ, Mireya. Sertanejo: um personagem mítico. Sociedade e Cultura, v. 1, n. 1, jan./jun. 1998. p. 29-39.

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