Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Histórico
Início do conteúdo da página

Caiçaras

Publicado: Sexta, 01 de Julho de 2016, 15h28 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 15h19 | Acessos: 232

Histórico

Nos primeiros séculos após o descobrimento do Brasil, o litoral foi a área que mais recebeu povoamento europeu e africano. Porém, com o avanço dos ciclos econômicos para o interior do país ao longo dos séculos XVIII e XIX, nos estados das regiões Sul e Sudeste se desenvolveu um processo de despovoamento e diminuição relativa de sua participação na economia nacional. Durante este período, os imigrantes que chegavam ao país se dirigiam para as regiões produtivas dos ciclos do ouro e do café, deixando este litoral privado de influências culturais externas que povoaram o interior. Assim, as comunidades caiçaras se desenvolveram com pouca ou nenhuma influência exterior.

A formação do povo caiçara tem muitos paralelos com a formação do povo caipira, habitante do interior dos mesmos estados das regiões sul e sudeste, ambos formados a partir do contato entre o imigrante português e o índio nativo, contando posteriormente com a influência africana, que nestes litorais foi menos intensa do que nas regiões canavieiras e mineradoras. Também sofreram influência de franceses, espanhóis, holandeses e posteriormente atémesmo japoneses, todos povos que passaram e deixaram algo na herança caiçara.

No começo do século XX, a região litorânea estava estagnada, sem fontes econômicas próprias, financeiramente deficitária e demograficamente desfalcada, com exceção da região do porto de Santos, em SP, e de poucas áreas onde uma economia agrícola se desenvolveu, principalmente de banana e chá. Para Mussolini, o litoral da região neste momento passava uma impressão de que “a vida ali foi simplificada em seus elementos culturais e, em comparação com o passado, reduzida a ponto pequeno. Talvez seja este o aspecto que mais cause a impressão de decadência1

Os caiçaras foram agricultores-lavradores atéo começo do século XX, não dependendo exclusivamente nem do mundo terrestre, nem do marítimo. Foi apenas a partir das décadas de 20 e 30 do século passado que o caiçara passou a valorizar mais a produção marítima sobre a terrestre, consequência da entrada em cena da embarcação àmotor, trazendo consigo uma indústria pesqueira incipiente, que começou a comprar a produção dos pescadores para abastecer os grandes centros brasileiros. Nas décadas seguintes esse mercado se estruturou e tornou-se mais complexo, exigindo cada vez mais a dedicação marítima exclusiva dos homens destas comunidades, que gradualmente passaram a prática da agricultura para as mulheres.

A Baixada Santista tem um papel histórico na transformação ocorrida na primeira metade do século XX. A pobreza dos solos na região, que sempre impediu uma atividade agrícola extensiva, e o desenvolvimento regional desencadeado pelo porto de Santos, criaram as condições para a formação da pesca embarcada no litoral paulista. Foi de Santos que os primeiros barcos a motor partiram em direção norte e sul, de encontro ao universo caiçara. Este movimento éo disparador das transformações que culminariam no abandono total ou parcial da agricultura de subsistência, transferindo o foco da mão de obra para a pesca marítima. Esta mudança, porém, não éabsoluta e algumas comunidades nunca iniciaram a transição.

Outro momento de inflexão na história caiçara éa abertura de estradas a partir da década de 1950, resultando no aumento do turismo no litoral sudeste e sul, que começou ganhar forma nos anos 60-70 e ao redor dos anos 1990 jáestava estruturado. Paralelo a este processo também se fez presente a especulação imobiliária predatória, avançando sobre as terras tradicionais caiçaras. Aliados, estes dois fatores promoveram expansão agressiva sobre praias e comunidades despreparadas para o embate. Grilagem de terras e intimidação foram amplamente utilizadas.

Construtoras e empreendimentos residenciais/turísticos alteraram o modo de vida de maneira muitas vezes irreversível, desmanchando o tecido social com a transformação dos espaços nativos dos caiçaras por meio da construção de hotéis, piscinas, restaurantes e toda a infraestrutura necessária para acomodar bem os turistas. Soma-se a isso a imposição de nova dinâmica de trabalho, que tem como prática relegar ao antigo dono da terra o papel de servente ou caseiro, prestando serviços para os hóspedes temporários em detrimento de suas práticas tradicionais de pesca e agricultura. São minoria as comunidades que escaparam completamente desta dinâmica.

Fim do conteúdo da página