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Caiçaras

Publicado: Sexta, 01 de Julho de 2016, 15h28 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h27 | Acessos: 371

Caracteríticas

A cultura caiçara se desenvolveu no bioma Mata Atlântica, no litoral do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, em pequenos enclaves de terra seca na estreita faixa territorial que separa a Serra do Mar do Atlântico. Locais de difícil acesso, só podiam ser alcançados em travessias por mar ou caminhadas por íngremes encostas e pela mata fechada, que o caiçara chama sertão, em oposição à praia, que é a areia. O isolamento espacial é uma característica dos grupos caiçaras, porém ele nunca foi absoluto. Esse isolamento é reflexo dos ciclos econômicos nacionais e locais que incidiram sobre estas populações e as diferentes comunidades se articularam de diferentes maneiras de acordo com as demandas de cada época e local. Como boa parte da literatura a respeito destes grupos foi escrita num ciclo de baixo desenvolvimento econômico, se construiu a imagem do caiçara isolado, imagem esta que precisa ser relativizada.

Da mesma forma, ainda hoje há uma grande diversidade entre os referenciais de cada comunidade caiçara. Os habitantes da orla litorânea possuem um contato maior com o oceano, complementando sua produção com uma agricultura incipiente, principalmente de mandioca e banana. Nas matas e baixadas afastadas da costa há uma presença maior de atividades extrativistas, enquanto os habitantes dos terraços fluviais têm um contato mais esporádico com o oceano, dependendo da agricultura de subsistência. Essas dinâmicas mistas entre pesca e agricultura aproximam o caiçara mais do caboclo amazônico do que dos pescadores artesanais do Nordeste, como os jangadeiros no Ceará ou os pescadores de saveiro na Bahia, que dependem mais do oceano.

Formados num contexto de esvaziamento populacional do seu território, o caiçara é um povo que se fixou no litoral enquanto as riquezas materiais corriam para o interior do país. Esse movimento começou na segunda metade do século XVIII, minguando portos e diminuindo a complexidade da rede de trocas disponível a essas comunidades, que acabaram reduzindo a produção local para bens de subsistência, principalmente farinha de mandioca, cachaça, peixes e outros frutos do mar, cujos excedentes comercializavam com as vilas e os centros regionais do litoral.

Nestes centros se concentram as instituições que emanam algum contato com a economia e o poder institucional: o porto, o mercado, a Igreja Matriz. As comunidades caiçaras orbitam a meia distância, fornecendo alimentos e adquirindo ali o mínimo necessário para subsistência. Principalmente no litoral norte de São Paulo, a presença da igreja Católica garante uma ligação mais pronunciada entre as comunidades semi isoladas e os núcleos urbanos da região. Em termos gerais o caiçara é católico, mas não rigoroso no cumprimento das obrigações e tradições.

Entre suas tradicionais expressões culturais estão as procissões e as festas com danças, como a Festa do Divino, congadas, reizados, alguns jogos e os pasquins, uma forma de literatura de cordel narrando a vida nas comunidades. O trabalho coletivo também é importante ritual de integração social: mutirões de derrubadas, de construção e as campanhas de pesca de tainha, grandes ciclos de pesca que reúnem boa parte dos moradores.

A chegada das igrejas protestantes ao litoral paulista teve reflexo na desconstrução do sagrado e dos mitos tradicionais. Mais rígidas do que a igreja católica no combate a mitos e costumes, há relatos de conflitos em comunidades devido à alteração progressiva dos valores ancestrais. Apesar das transformações culturais e econômicas que as comunidades litorâneas vêm sofrendo, Setti observou que nelas há uma consciência grupal que preservou sua cultura ancestral. Diz a pesquisadora:

O caiçara mantém hábitos de linguagem e práticas musicais que permitem tipificar fala e música. Essa é transmitida aos jovens pela família, que funciona como unidade de preservação, verdadeiro celeiro onde a tradição musical vai sendo cultivada e repetida num processo contínuo. É como se houvesse nichos naturais de proteção, onde se guardam recortes de um saber ancestral, celebrado e perpetuado nas festas e ocasiões musicais significativas para a comunidade. A ideia de recortes musicais ancestrais não deve ser confundida com sobrevivência, pois no caso caiçara esses recortes não atuam como relíquias de que se tenha perdido o sentido, mas como elementos culturais vivos e participantes do cotidiano, com funções muito definidas de participação ou confraternização2

A divisão de gênero é bem marcada nas comunidades caiçaras, com tarefas reservadas a cada um. À mulher cabe o papel de mãe, dona de casa e, em alguns casos, apoio aos homens na agricultura, sendo responsável pela manutenção do grupo doméstico, sua reprodução e manutenção. Ao homem cabem as atividades produtivas da pesca, a caça, a construção de casas e ranchos, o plantio e a colheita, além do transporte e comercialização dos excedentes.

A sobrepesca de determinadas espécies a partir de sua demanda comercial específica e a expansão da pesca industrial são outros fatores de pressão econômica e ambiental sobre essas comunidades, fatores estes que limitam o acesso caiçara a recursos tradicionalmente disponíveis, diminuindo seu território e, consequentemente, seu espaço de definição social.

As comunidades caiçaras do litoral norte de SP, por exemplo, sofrem forte impacto com a urbanização acelerada das últimas décadas. A pavimentação de estradas fez com que a região se integrasse abruptamente ao eixo Rio –São Paulo, grande potência econômica nacional. Em decorrência disso, o crescimento populacional da área foi cerca de quatro vezes maior do que a média nacional entre os anos de 1950 - 2007, resultando no acirramento da disputa imobiliária sobre as terras caiçaras e a consequente desarticulação do modo de vida tradicional.

Por outro lado, o litoral sul do mesmo estado é uma região economicamente menos dinâmica e marcada por áreas de preservação ambiental. O resultado disso é um cenário de mata atlântica nativa onde as populações tradicionais sofreram menos impacto da especulação imobiliária predatória. Na região, entretanto, são comuns os conflitos decorrentes das restrições impostas pela legislação ambiental nas áreas determinadas a como unidades de conservação da natureza, especialmente nas UCs de proteção integral em que não há previsão de moradia e o uso dos recursos naturais é bastante restrito, dificultando, assim,a manutenção das práticas tradicionais.

Assim sendo, é possível afirmar que, de maneira geral, os caiçaras sofrem hoje ameaças de quatro naturezas: turismo, especulação imobiliária, sobrepesca e restrições legalmente impostas à moradia e às práticas tradicionais de pesca, agricultura e/ou extrativismo em áreas estabelecidas como unidades de conservação de proteção integral. Sua articulação política local e as redes de apoio da sociedade civil enfrentam dificuldades nestes embates contra grandes empreendimentos ou governos alheios a suas demandas, resultando, novamente de maneira geral, na desarticulação de seu modo de vida tradicional.

 

Referências

CHIQUINHO, Cleber Rocha (org.). Saberes Caiçaras: a cultura caiçara na história de Cananéia. São Paulo: Páginas & Letras Editora e Gráfica, 2007

DAMS, Cristina. As populações caiçaras e o mito do bom selvagem: a necessidade de uma nova abordagem  interdisciplinar. Rev. Antropol.,  São Paulo ,  v. 43, n. 1,   2000 .  

FRANÇA, A. 1954 A Ilha de São Sebastião. Estudo de Geografia Humana, São Paulo, FFCL - USP, Boletim 178, Geografia, n. 10.

GARROTE, Valquíria. Os quintais caiçaras, suas características sócio-ambientais e perspectivas para a comunidade do Saco do Mamanguá, Paraty-RJ. Dissertação de mestrado. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo. 2004. 186 p.

LOURENÇO, Enio. Assembleia Legislativa aprova Mosaico de Unidades de Conservação da Jureia-Itatins. Reportagem da Rede Brasil Atual, 07/03/2013

MUSSOLINI, G. 1955 Persistência e mudança em comunidades de folk. In: CONGRESSO 1980 Ensaios de antropologia indígena e caiçara, Rio de Janeiro, Paz e INTERNACIONAL DE AMERICANISTAS, 31, 1955. Anhembi, H. Baldus (org.), 1955. vol. 1, p. 345-53. *Citação 1

RODRIGUES, C. L. O Lugar do Fandango Caiçara: natureza e cultura de" povos tradicionais", direitos comunais e travessia ritual no Vale do Ribeira (SP). Tese de doutorado. Campinas, Universidade  Estadual de Campinas: 2013. 281 p.

SILVA, L. G. S. Caiçaras e jangadeiros: cultura marítima e modernização do Brasil. São Paulo: CEMAR/Universidade de São Paulo, 1993. 145 p.

SETTI, K. Ubatuba nos cantos das praias. Um estudo do caiçara paulista e de sua produção musical. S. Paulo,Ática, 1985.

SETTI, K. Notas sobre a produção musical caiçara: música como foco de resistência entre pescadores do litoral paulista. Rev. Inst. Est. Bra. n. 42. São Paulo, 1997. p. 145-169 *Citação 2

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