Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Características
Início do conteúdo da página

Apanhadores de Sempre-vivas

Publicado: Quarta, 06 de Julho de 2016, 14h43 | Última atualização em Quinta, 14 de Julho de 2016, 18h22 | Acessos: 650

Características

“O parque é do IBAMA, mas a serra é nossa” (Morador do pé-da-serra).

Os apanhadores estão localizados na região de Diamantina, porção meridional da Serra do Espinhaço ou Cadeia do Espinhaço, em Minas Gerais. As comunidades locais costumam denominar essa porção da Serra do Espinhaço de Serra Mineira ou Serra de Minas. Essas pessoas têm forte ligação com sua terra/território e são conhecedores da fauna e da flora local.

Uma das características comum à maioria das comunidades tradicionais é a transmissão do conhecimento por meio da oralidade e observação. As crianças também são envolvidas na coleta de flores, aprendendo desde cedo como coletar mantendo a capacidade de renovação dos campos. Outras atividades que garantem a produção da vida e geração de renda, além da coleta de flores, são: a coleta de plantas medicinais; a criação de gado rústico nos campos sobre a serra - nas áreas de uso comum e sem dificuldades para identificação dos animais de cada família; agricultura (milho, feijão, mandioca, etc.) podendo valer-se de rotação com pousio de glebas, criação de animais de carga e de pequenos animais para consumo doméstico (galinhas e porcos); caça, para alimentação; coleta de frutos nativos (pequi, cagaita, mangaba etc.).

Assim como se observa em outros grupos tradicionais, há uso de fogo em algumas localidades, técnica antiga e com intervalo de uso determinado, para renovação das pastagens nativas e estímulo ao crescimento das flores. Trata-se da prática que mais tem repercussão na discussão sobre a conservação e há pesquisas sendo iniciadas na região para melhor compreensão desse processo. Sobre tal prática, os moradores afirmam que há plantas que respondem mais positivamente ao fogo, estimulando seu crescimento, pois este elimina as espécies mais altas que inibem o processo de crescimento das flores, além de diminuir a quantidade de ervas tóxicas, que são prejudiciais ao gado. Por outro lado, estudos defendem que o fogo torna o solo pobre em nutrientes em pouco tempo, apesar de inicialmente trazer aparentes benefícios. Mesmo sendo uma prática difundida entre vários povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares, muitos já tem questionado a manutenção desta prática por ser potencialmente prejudicial ao meio ambiente.

Há um cuidado da comunidade acerca do uso dos recursos naturais de forma a não comprometer a manutenção do ambiente. Segundo os nativos, houve uma época em que pessoas sem ligações com as comunidades, ou “o povo de fora”, entravam nos campos para apanhar as flores sem os devidos cuidados e técnicas para garantir a sua preservação, o que incomodou muito as comunidades apanhadoras de flores, pois tais pessoas desconheciam/desconsideravam os códigos de convivência locais com o território e uso sustentável do ambiente. Dessa forma, os apanhadores buscaram mecanismos de proteção de seus territórios.

Outra característica tradicional da relação da comunidade com a serra é o uso dos ranchos e lapas. Ambos são locais de moradia nos campos localizados sobre a serra durante a época da coleta de flores. Os ranchos são construídos de madeira ou adobe e folha de palmáceas, também utilizados por viajantes. Já as lapas são grutas nas formações rochosas. Algumas das lapas recebem os nomes das famílias que tradicionalmente as utilizam no período de apanha. Esses momentos de apanha também geram uma confraternização de todas as famílias, além de serem momentos propícios para festas e enlaces. Assim, as pessoas têm uma relação com o ambiente que vai além da dimensão econômica.

Para os nativos, a serra é um local de vivência, trabalho, afetividade e tradição. Área de uso comum que estreita laços familiares, o que caracteriza também a posse das terras e o uso de terras tradicionalmente ocupadas. Os apanhadores referem-se à serra a partir de um conceito de liberdade e como essa liberdade foi comprometida com a instalação do PARNA.

As terras contidas nos territórios tradicionais são herdadas através da ancestralidade, mas assim como é recorrente entre povos e comunidades tradicionais, em geral não são tituladas. Há casos em que a coleta de flores se dá em áreas de empresas e fazendeiros, em geral com o consentimento dos proprietários. Embora muitas terras sejam lícitas, há um conflito entre as grandes propriedades de fazendeiros e o trabalho dos apanhadores, quando os coletores se sentem explorados pelos proprietários, além da questão de grilagem de terras que também ocorre na região. As empresas e fazendeiros exploram, ainda, as possibilidades de criarem a imagem de empreendimentos aliados ao meio ambiente, por meio da elaboração de planos de compensação ambiental e investimento em áreas de parque como forma de compensação de danos ambientais causados em outras localidades.

Atualmente, os apanhadores de flores lutam pelo seu reconhecimento cultural e econômico com vínculos territoriais demandando o direito de acesso e uso dos recursos dos quais dependem para manter seu modo de vida tradicional. Os apanhadores de flores estão organizados na CODECEX (Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas Apanhadoras de Flores Sempre-vivas), que luta pela recategorização do Parque Nacional das Sempre-vivas para uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) reconhecendo o direito à coleta de flores como prática tradicional.

Para que haja exploração da área é preciso que o manejo das espécies de flores em uso seja regulamentada pelo Estado, o que já está em curso. Há, inclusive, protocolos de cultivo e manejo de coleta sustentável em construção para espécies consideradas em extinção, contando com pesquisas acadêmicas. É sabido que estes processos são demorados, porém necessários. Há moradores no entorno do PARNA, mas também há quem viva no interior do Parque e todos têm pressa nessas definições.

Este é um tema polêmico nas comunidades, pois ao mesmo tempo em que muitos sentem suas atividades invisibilizadas com o parque, outras entendem a necessidade e importância das unidades de conservação, tentando chegar a um meio termo entre como proteger o meio ambiente e manter as tradições dos apanhadores de sempre vivas, como por exemplo estudando a possibilidade de transformação em parte das UCs hoje de Proteção Integral em Reservas Extrativista – RESEX ou Reserva de Desenvolvimento Sustentável - RDS. Outra questão importante a se destacar é o fato de que, uma vez que a coleta de flores sempre vivas não é a única fonte de renda das famílias, nem é capaz de sozinha dar autonomia financeira às comunidades (já que elas dependem de outras fontes complementares de renda), mesmo que essas áreas protegidas permitam o exercício da coleta, ainda não estariam resolvidos os problemas dessas comunidades.

Há indícios de que a atual conservação da região é fruto do trabalho realizado de forma sustentável pelas comunidades ali presentes, principalmente por meio do manejo sustentável das flores, do saber tradicional ligado às fases de vida das flores, coleta e os saberes ligados à produção sustentável de alimentos para subsistência, como nas roças. Isso serve de forte mensagem na luta dos apanhadores de flores para que seu direito de uso seja garantido.

“Nós somos a favor da preservação da natureza e fizemos isso a vida inteira, tanto que eles acharam isso aqui bem cuidado e quiseram fazer um parque. A questão é que nós não queremos ser excluídos da preservação.”

(Morador da serra) 

Referências:

MONTEIRO, T. F.; FÁVENO, C. A luta dos(as) apanhadores(as) de flores sempre-vivas frente à expropriação territorial provocada por unidades de conservação de proteção integral da natureza. Agriculturas, v. 8, n. 4, dezembro de 2011. p. 33-37

MONTEIRO, T. F.; PEREIRA, D. B. ; DEL GAUDIO, R. S. Os(as) apanhadores(as) de flores e o Parque Nacional das Sempre-vivas: entre ideologias e territorialidades. Soc. & Nat., Uberlândia, ano 24 n. 3, set/dez. 2012. p. 419-434.

MONTEIRO, F. T. Os(as) apanhadores(as) de flores e o Parque Nacional das Sempre-Vivas (MG): travessias e contradições ambientais. Dissertação (Mestrado), UFMG, Belo Horizonte. 2011. *todas as falas de moradores transcritas nesse texto foram retiradas desta referência.

Carta “Pela preservação da natureza e dos modos de vida tradicional. CODECEX – Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Tradicionais.

Fim do conteúdo da página