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Andirobeiras

Publicado: Quarta, 29 de Junho de 2016, 18h15 | Última atualização em Sexta, 08 de Julho de 2016, 16h23 | Acessos: 816

Características

“Nem todas as pessoas podem com a andiroba. Pra alguns, ela não sai, é como se fosse um dom.”

A andiroba é encontrada principalmente na região amazônica, ao norte da floresta, em alguns Estados como Pará e Amazonas. São dois tipos de sementes das duas espécies de andiroba (Carapa procera D.C. e Carapa guianensis Aubl.) que são utilizadas como matéria prima de óleo, remédios, xaropes, cremes, sabonetes, xampus, etc, sendo a principal diferença entre as duas o tamanho da semente. A primeira, C. procera, também é chamada de andiroba-brava e a segunda, C. guianensis, de andiroba-mansa.

O processo de extração da andiroba da natureza é transmitido pela oralidade e é executado, na maioria das comunidades, com as mesmas técnicas. Houve a introdução de tecnologias para obtenção do óleo de andiroba, como prensas, mas poucas comunidades e famílias conseguem adquirir esse equipamento. Há ainda os que não concordam em extrair o óleo de forma mecânica ou semiartesanal. Existem divergências sobre a quantidade de óleo produzida a partir de cada semente, numa relação de quilos de sementes para litros de óleo.

Há diferenças de qualidade no óleo em função do método aplicado para sua extração. Não somente na questão do uso de prensas ou o chamado tipiti, mas fatores como tempo de descanso antes da fervura, tempo de secagem após cozimento, armazenamento, forma de extrair a massa das amêndoas, forma de amassar e dispor a massa e, principalmente, o manuseio dessa massa durante a coleta do óleo.

Os óleos de andiroba também se diferenciam pela época de coleta do fruto. Acredita-se que o primeiro óleo extraído da massa é mais puro que as demais porções obtidas. Outro fator que diferencia a qualidade do óleo é o local de sua armazenagem e os recipientes utilizados. Garrafas de plásticos permitem muito mais o contato do líquido com o ar, enquanto vidros de tom âmbar o protegem melhor. Há ainda a crença de que pessoas invejosas, mulheres grávidas ou em período menstrual não podem ver a massa, nem tocar, pois o processo de obtenção do óleo é interrompido.

Há histórico de diferentes formas de realizar o extrativismo da andiroba. A principal é a coleta dos frutos que caem das árvores em áreas de várzea ou nas áreas de terra seca em que há incidência. Porém, também há relatos de acesso à andiroba nas praias, por meio da “catação” das castanhas que são trazidas pelas marés. São em seguida guardadas em “paneiros” confeccionados artesanalmente pelas mulheres para carregar e armazenar a andiroba e outros itens. Em casa, as sementes são cozidas em água por 1 a 3 horas até amolecerem e deixadas ainda dentro das cascas descansando por 45 dias para que percam a água do cozimento e como parte dos segredos e tradições do processo. Depois, apenas as mulheres fazem a extração da massa no interior da casca com objetos afiados. Essa massa é posta para descansar por mais três dias, pisoteada e posta sobre tábuas para que o óleo escorra por 10 a 15 dias. Este é armazenado em utensílios de inox, pois acredita-se que interaja pouco com o óleo, mantendo a sua pureza. Há também as técnicas de Tipiti (prensa em madeira) e de fervura da massa para que o óleo se desprenda e flutue na água, mas essas são técnicas menos comuns.

No entorno desse processo no qual se misturam saberes tradicionais, observação e aprendizado pelo exemplo, vários mitos foram criados: mulheres menstruadas, próximas do parto ou em luto não podem tocar a andiroba, e a massa não pode ser vista por pessoas invejosas sob o risco de “quebranto”, ou má qualidade do óleo. Também há o costume de se desenhar uma cruz na massa que escorre, pelo mesmo motivo expresso acima. Ressalta-se o fato de que o processo de beneficiamento ocorre todo no interior da residência, geralmente na cozinha, estando muito ligado ao cotidiano dos afazeres domésticos e à vida feminina.

Essas comunidades possuem uma série de crenças, simpatias, religiosidade e segredos no processo de extração do óleo da andiroba que são passados pelas gerações por meio da oralidade.

A extração do óleo é realizada para uso medicinal da família e da comunidade, por meio da produção de medicamentos, garrafadas, xaropes, repelentes, emplastos e outras formas. Atualmente, também é usado em cosméticos, como shampoos, sabonetes em barra ou líquido, hidratantes e óleos corporais. As próprias comunidades produzem alguns produtos a partir do óleo, como cremes, repelentes, remédios e sabonetes, mas estes dificilmente possuem caráter comercial, sendo geralmente usados para trocas ou para presentear vizinhos e parentes. O uso comercial em larga escala tem sido feito por grandes indústrias cosméticas que investem em nichos de mercado e em produtos exóticos, comprando a andiroba ou o óleo dela de atravessadores que, via de regra, exploram as relações com os coletores.

As mulheres parteiras nas comunidades também utilizam o óleo de andiroba para ajudar nos partos, tanto na massagem que auxilia a mãe antes de o bebê nascer quanto para a esterilização e cicatrização do umbigo da criança.

Como em outros processos de extrativismo, como a mangaba ou o coco babaçu, os trabalhos são mais centralizados nas mulheres e crianças, com pouco envolvimento dos homens, principalmente nos últimos estágios da obtenção do óleo. As mulheres possuem importância nas comunidades não só pelo trabalho com a andiroba, mas também por exercerem atividades práticas e místicas como de parteiras, benzedeiras e curandeiras, lidando com grande diversidade de plantas, raízes e cascas com caráter medicinal.

O óleo de andiroba é extraído para uso pessoal e comunitário, mas também para comercialização ou troca. Em alguns casos, são atividades complementares para ampliação da renda familiar. Em outros, são a única fonte. Essa questão repercute na qualidade de vida das populações, pois o valor da madeira de andiroba em tora é superior aos dos produtos extraídos da árvore. Além de enfrentarem dificuldades devido ao baixo preço praticado no mercado de forma geral, a figura do atravessador gera uma relação desigual e injusta na comercialização. Grande parte das famílias extratoras de andiroba é beneficiada por algum tipo de política estatal de transferência de renda. Isto pode ser considerado um indicador da vulnerabilidade que muitas vezes assola comunidades extrativistas e tradicionais como a comunidade aqui descrita.

A maior comercialização direta realizada pelas andirobeiras ocorre nos mercados locais ou vendas/bodegas, seja em regime de “meia” ou de consignação. A crescente valorização de um ou outro produto de base extrativista ocorre devido ao surgimento de novos nichos de mercado e devido à crescente valorização dos quesitos relacionados à responsabilidade social e à sustentabilidade ambiental no mundo empresarial. Apesar dos aparentes benefícios derivados do crescimento do mercado consumidor para produtos derivados da andiroba, o maior interesse de pessoas de fora das comunidades pela atividade de extração do fruto tem instaurado a concorrência pelos recursos naturais e induzido a ação de grileiros nas zonas de ocorrência das comunidades andirobeiras.

As comunidades andirobeiras vivem suscetíveis a conflitos ambientais e agrários como a perda das terras para posseiros e grileiros, destruição das florestas e da biodiversidade, corte indiscriminado das andirobeiras para exploração madeireira e problemas ligados à poluição das águas, construção de barragens e represas e diminuição da quantidade e diversidade de peixes.

Outros problemas enfrentados pelas andirobeiras são riscos na prática da coleta (como picadas de cobras e escorpiões), desvalorização do produto final do seu trabalho, adulteração de produtos por alguns comerciantes e desconstrução dos saberes e práticas pelas novas gerações, com os jovens cada vez mais distantes e menos interessados em dar continuidade aos saberes tradicionais. Várias comunidades têm passado pelo processo de assimilação cultural que leva a uma perda de suas bases tradicionais. Este processo está diretamente ligado à aquisição de bens de consumo e tecnológicos e à assimilação de novos conteúdos por meio do acesso aos meios de comunicação de massas (rádio e TV principalmente).

Nos últimos anos, moradores de algumas regiões têm se mobilizado em torno de lutas como a organizada contra a Usina de Tucuruí e contra a poluição das águas. Sindicatos de trabalhadores rurais e movimentos que reúnem os povos que vivem em torno das águas no Pará também são representativos das lutas das andirobeiras por melhores condições de vida e pela garantia da manutenção de seus costumes e tradições, mesmo que de forma descentralizada. Movimentos locais de mulheres e de apoio a comunidades carentes também são importantes nessa representatividade.

O IPEDE – Instituto de Pesquisa, Educação, Desenvolvimento de Práticas Populares na Amazônia, também articulou várias causas e movimentos e apoiou a realização de seminários relativos ao Beneficiamento de Óleos Vegetais no fim da década passada.

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